Nem uma a menos. Nem estuprada, nem assassinada

  –  Ensaio de Tania Rodriguez  –  

mulher2Nos últimos dias temos visto comoção nas redes sociais a partir do caso da jovem de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Temos visto tanto a indignação como a banalização e inclusive culpabilização da menina pelo ocorrido. Com isso percebemos o quanto é necessária a discussão ampla e irrestrita sobre a violência de gênero e, mais especificamente, sobre a violência contra a mulher.
Em tempo de golpes, de incremento das desigualdades e violências, vemos algumas parcelas da sociedade, em especial representantes de algumas elites brasileiras, se oporem a uma suposta “ideologia de gênero” que seria difundida pelas feministas e que o governo do PT teria apoiado. O que é preciso compreender é que aqueles que se opõem a discussão sobre gênero e sobre a violência contra as mulheres estão defendendo de uma ou outra maneira, a perpetuação dessa violência. Defendem a perpetuação do patriarcado e do machismo. Esses problemas não são só referentes à realidade brasileira, muito pelo contrário e lastimosamente, esse cenário é parte da realidade latino-americana e mundial.
Em entrevista concedida por Lara Blanco, representante de ONU Mulheres, ao jornal uruguaio LaDiaria, ela explica que uns dos principais problemas a serem enfrentados na região é a eliminação da violência contra as mulheres, que na na região da América Latina e Caribe possuem as mais altas taxas de feminicídios em nível global (http://ladiaria.com.uy/articulo/2016/5/lo-que-falta/). Segundo Blanco, “as mulheres de entre 15 e 49 anos que são vitimas de mortes violentas são no contexto de relações pessoais”. Ou seja, a violência contra as mulheres se dá principalmente dentro de seu entorno de relações sociais. Não estamos seguras nem na rua, nem no trabalho nem em nossa própria casa.
No caso do Brasil especificamente, os dados são estremecedores. A cada onze minutos uma mulher é estuprada. E segundo dados fornecidos pelo portal Feminicídio no Brasil, neste país, a cada uma hora e meia um homem assassina uma mulher. E “estima-se que, entre 2001 e 2011, tenham ocorrido mais de 50 mil homicídios motivados por misoginia: isso torna o Brasil o sétimo país que mais mata mulheres no mundo.” O feminicídio é nome que se dá ao crime de assassinato de mulheres pelo fato de só serem mulheres. O portal também expõe que essa violência é fruto da nossa própria historia de colonização e escravidão. Dizem: “A herança deste passado se reflete nos dados atuais da pesquisa realizada em 2012 pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), que mostra que as mulheres negras representam 61% das vítimas de feminicídios no país.” (http://feminicidionobrasil.com.br/) Além de as mulheres serem vítimas da violência pelo fato de serem mulheres, aquelas que são negras sofrem duplamente. As mulheres negras são as que mais morrem no Brasil.
É por essa história e contexto alarmante de violência contra a mulher que temos que lutar pelo fim do machismo, do patriarcado e da cultura do estupro. Precisamos desconstruir a ideia de que a mulher é a culpada pelas violações e/ou assassinatos. NÃO SOMOS CULPADAS, NÃO MESMO! Quem tem a responsabilidade é o próprio sistema capitalista e patriarcal no qual vivemos. Mas isso não pode de servir de pretexto para os governantes nem para a sociedade para não lutarem contra essa violência. O silêncio nos faz cúmplices! Te faz cúmplice!
Somos mulheres e temos direitos. Não somos objetos, não somos coisas. Por mais que use saia curta, saltos e top, o corpo é meu e faço o que quiser. De batom vermelho ou sem maquiagem, a decisão é minha, não da mídia nem do homem. Se não estou segura nem na rua nem em minha casa, a culpa é de quem? A culpa é da sociedade que se mostra complacente, que acusa a mulher pela dor e violência que ela sofreu, contribuindo a perpetuar a cultura do estupro.
A utilização do termo “cultura do estupro” tem por objetivo mostrar como a sociedade culpa as próprias vitimas de abuso sexual e normaliza a violência sexual contra a mulher. “Cultura do estupro”, na definição fornecida pela página do Facebook “Bandeira Negra” é o conjunto de crenças e valores que encorajam agressores sexuais e apoiam a violência contra a mulher. Nós mulheres vivemos ameaças de violência constantes, todos os dias, desde as cantadas na rua até assedio físico (toque na bunda na rua ou no ônibus, por exemplo) e/ou até mesmo o estupro.
Se a menina que foi violentada no Rio tem vínculos com o tráfico ou usa drogas, como agora a grande mídia diz, isso não pode permitir que se justifique a violência que ela sofreu. Não mudemos o foco de atenção. O que tem que nos chamar a atenção e indignar não é a vida privada dela e a forma como ela leva sua vida, mas sim que o caso dela é só um a mais dos muitos que sofrem as mulheres. Repito, cada onze minutos uma mulher é violentada no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2015, em 2014, 90,2% das mulheres afirmaram ter medo de sofrer violência sexual, houve 47.646 estupros registrados e apenas 35% dos crimes são notificados.
Por isso, a nossa luta têm que ser cotidiana. Pelo fim da cultura do estupro! Pelo fim dos feminicídios! Somos mulheres e nossos corpos e vidas nos pertencem! Nos levantamos contra o patriarcado, contra o machismo, contra a violência e o feminicídio! Lutamos pelo reconhecimento e respeito da nossa humanidade.
Marti Vive! La lucha SIGUE!
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Tania Rodriguez é formada em História pela Unila, em Foz do Iguaçu. Texto publicado na revista Escrita 43