Nise da Silveira

A mulher que revolucionou a saúde mental no Brasil.

Texto de Pietro Navarro Portela(*)
Nise da Silveira é homenageada por paciente (Fotos: reprodução Internet)

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Anos antes de termos como algo consolidado o início da Reforma Psiquiátrica no Brasil, momento em que aberturas seriam criadas para novos tratamentos e formas de olhar para o indivíduo em saúde mental, Nise da Silveira já colocava a experiência das pessoas em primeiro lugar, de maneira sensível, porém estudada e objetiva.

Não à toa, Nise é considerada a pioneira da terapia ocupacional e do uso da arte como ferramenta terapêutica no Brasil, além de outras coisas que lhe cabem com toda certeza.

Foi utilizando da linguagem artística como forma de alcançar os frequentadores dos centros onde trabalhou, que Nise teria percebido o impacto positivo que as artes poderiam ter sobre a vida dessas pessoas.

Foi apontando falhas na psiquiatria tradicional, que Nise contestou e demonstrou soluções, dando novos contornos e sentidos aos tratamentos e às relações entre os médicos, psiquiatras e as pessoas, naquela altura, consideradas loucas.

Nise da Silveira, acima de tudo, mudou a saúde mental brasileira para sempre. É, se não a maior, uma das maiores referência nacionais da área. Uma mulher extremamente capaz que acabou por se tornar um símbolo.

A história de Nise da Silveira e sua importância como símbolo da saúde mental no Brasil

Nise da Silveira em dois tempos. Aos 12 anos e, depois, anciã, na segunda metade do século XX. (Fotos: acervo Casa das Palmeiras)

Nise da Silveira nasceu no estado de Alagoas, na cidade de Maceió, no ano de 1905. Formou-se médica pela Faculdade de Medicina da Bahia, no ano de 1926, em uma turma composta por homens, onde ela era a única exceção, em um período ainda mais conservador do que este em que vivemos hoje.

Turma de Medicina de 1926, na Bahia. Nise é a única mulher entre os formandos.

Por sua opinião política forte (nota da edição: a médica mantinha contato com intelectuais de ideias marxistas), entre os anos de 1936 e 1944, Nise foi presa pelo Estado Novo brasileiro, retornando apenas em 1944 para suas atividades, quando seria readmitida para atuar no Centro Psiquiátrico Pedro II, local em que trabalhou por muitos anos de sua vida.

Nise era contra os tratamentos aplicados na época aos pacientes dos locais em que trabalhou; não aceitava o eletrochoque e outros tipos de terapias agressivas contra a vida de qualquer ser humano.

Grande admiradora da teoria de C.G. Jung, com quem trabalharia por alguns anos, Nise sustentava uma visão muito singular e contrária ao tradicionalismo psiquiátrico da época, de que a psicopatologia seria uma outra forma de experimentar e existir no mundo.

Nise da Silveira e Carlos Jung em exposição de quadros dos pacientes da médica.

Nise acreditava na totalidade das pessoas e via como meio de transformar a vida de seus pacientes o conhecer de suas interioridades, de suas expressões, fundamentalmente por meio da arte, a qual era tão apaixonada.

Por 28 anos, Nise dirigiu o Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira, desenvolvendo atividades que estimulavam os pacientes, aumentando sua interação com o meio, ao usar de diversas formas artísticas para expressão do próprio ego (Pereira, 2017).

Não sem enfrentamentos, Nise da Silveira já combatia as atrocidades a que era obrigada a presenciar nos manicômios/hospitais psiquiátricos de sua época. Ela, como reiteram em sua biografia, nunca teria aceitado os métodos ortodoxos da psiquiatria antiga, destoando da grande maioria de seus colegas médico psiquiatras.

Hostilizada por suas ideias inovadoras, por seu desejo de desconstruir o modelo vigente de tratamentos agressivos e torturadores, os ideais de Nise foram a porta de entrada para a humanização dos hospitais no Brasil.

Ao longo dos anos, os projetos de Nise da Silveira ganham espaço. A arte como meio terapêutico ganharia força e alcançaria resultados claros.

Ela, Nise, daria voz, e a expressão artística, um meio verdadeiro e sensível de recuperação ás dificuldades psicológicas enfrentadas pelos internos com quem ela e sua equipe tinham contato.

O método de Nise da Silveira – Arte, vida e recuperação

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Em 1946, dois anos depois de seu retorno do exílio, Nise da Silveira é convidada a assumir a coordenadoria do setor terapêutico do Centro Psiquiátrico Pedro II, tendo a oportunidade de estar presente na ala pela qual sempre teve um enorme interesse.

A partir desse momento, Nise passa a por em prática seus estudos, construindo atividades terapêuticas em conjunto com os próprios internos e alguns dos profissionais membros de sua equipe.

O antigo Centro Psiquiátrico Pedro II
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Desmontando o modelo anterior, que levava os internos a realizarem atividades pouco objetivas como varrer o chão e carregar roupa suja, Nise introduziria práticas artísticas de expressão no setor para que eles pudessem alcançar suas interioridades e aprender, com auxilio, a lidarem com suas dificuldades psicológicas.

A ideia de Nise, após os bons resultados que ela e sua equipe obtiveram em relação aos pacientes, era consolidar a atividade terapêutica como uma prática efetiva e modalidade da psicoterapia a ser considerada e levada a sério, com base em teorias e estatística.

Nise estabeleceria alguns critérios básicos de atendimento dentro do setor de terapia do Centro Psiquiátrico Pedro II. Ela estava prestes a marcar de fato sua vida e história na trajetória da saúde mental no Brasil.

O método de Nise da Silveira partiu de critérios básicos estabelecidos por ela no período de coordenação do Centro. Nise apontava para quatro critérios principais aos quais toda atividade naquele contexto deveria atender:

1) Com a finalidade de oferecer respaldo para que a atividade não seja concebida como mero passatempo, a Seção de Terapêutica Ocupacional somente recebia pessoas que fossem encaminhadas, através de receita, pelos médicos dos outros setores do centro psiquiátrico.

Desta forma, eram criadas as condições mínimas para se considerar a atividade ocupacional como legítimo método terapêutico;

2) A partir das observações oferecidas pela receita, o monitor possui como tarefa indicar as atividades iniciais que o cliente irá participar e, em seguida, observar tanto a maneira como as realiza quanto o tipo de produção em cada setor.

3) Os setores de atividades são mistos;

4) Não se tem como objetivo a qualidade da produção (Silveira, 1966 apud Melo, 2009).

A mistura das áreas, sua “interdisciplinaridade institucional”, quebrou paradigmas no Centro, ao mesmo tempo em que causou certo estranhamento profissional a alguns médicos, que viam os encaminhamentos como algo novo e diferente.

A ideia de Nise no início era mesmo a de institucionalizar, por meio desses 4 elementos, as práticas realizadas pelo setor do qual era responsável, validando-as perante as outras atividades exercidas naquele espaço. Mas o método nunca deixou de seguir seu desenvolvimento.

Então, sob a mesma linha de desejos e raciocínios, já com o estabelecimento dos critérios iniciais dos tratamentos terapêuticos, Nise segue com a criação de um modelo simples de agrupamento, contendo as modalidades da atividade terapêutica bem definidas e classificadas.

Em termos simples, as modalidades seriam:

1) Atividades mais utilitárias que levam em consideração o esforço típico do trabalho

– Neste grupo encontram-se os setores de marcenaria, sapataria, cestaria, costura, jardinagem e encadernação.

Estas atividades seriam indicadas para “favorecer a afirmação da personalidade madura”, ou seja, o monitor trabalharia somente com “os pacientes já bastante melhorados.

2) Atividades expressivas, como pintura, modelagem, entalhe, música, dança, teatro, etc

– Se colocando no sentido contrário ao tratamento centrado nas internações psiquiátricas, a liberdade de expressão é a pedra de toque dessas atividades, para as quais não existem modelos a serem copiados, tendo como regra a espontaneidade

3) Atividades recreativas, como jogos, festas, cinema, rádio, televisão, esportes e passeios.

– Nise afirmava que, muitas vezes, deve-se recorrer às atividades lúdicas “que proporcionem satisfação imediata”. E o esporte é visto, desta forma, como uma transição entre a brincadeira e o trabalho

4) Atividades culturais, ligadas ao ensino e ao estudo (Silveira, 1966 apud Melo, 2009).

Para Nise, esse quadro mostrava que a afetividade e a possibilidade de melhora encontravam-se na simples presença do monitor (catalisador do processo), no estabelecimento de uma relação pautada no afeto, e na criação de um ambiente propício (afetivo) para que as pessoas pudessem se expressar (Melo, 2009).

Por fim, a ideia e paixão de Nise dariam frutos, seu método continuaria a ser desenvolvido até ser considerado uma ciência terapêutica, e as portas que ela teria aberto no passado dariam margem para as mudanças que vemos acontecer hoje, no futuro.

O projeto Casa das Palmeiras



Parte da história de Nise da Silveira, de sua continuação e também da continuação de seus projetos, deu-se sob a forma do projeto Casa das Palmeiras, um lugar voltado somente para a recuperação de pessoas recém egressas de hospitais e serviços psiquiátricos até hoje.

A ideia era construir um lugar que pudesse funcionar como ponte entre os serviços e a vida em sociedade, um lugar todo especial, feito para que os antigos internos pudessem recuperar e trabalhar tanto sua independência quanto sua autoestima.

Diferentemente dos hospitais psiquiátricos, a Casa das Palmeiras funcionava com ênfase no contato afetivo e na expressão criativa, para promover a recuperação das pessoas atendidas.

O convívio com a arte e profissionais de diferentes áreas, preparados para atender as demandas surgidas de acordo com a metodologia de Nise, dava o tom do espaço. É, ainda hoje, um lugar voltado para a pessoa e sua experiência de vida no mesmo formato.

Fundada em 1956 por Nise, a Casa das Palmeiras (RJ) funcionava já naquela época em moldes semelhantes aos dos ambulatórios, mais especificamente como os centros de atenção psicossocial (CAPS) atuais, resultantes da Reforma Psiquiátrica (Pereira, 2017).

Dentre algumas das novas práticas que seriam utilizadas na Casa, encontra-se a terapia com animais, que ainda hoje recebe diversos estudos comprovando sua eficácia na melhora de quadros psicossociais negativos ou mesmo no desenvolvimento pessoal do ser humano.

Obra produzida na Casa das Palmeiras

Legado de Nise –Apesar do falecimento de Nise em 1999, seu legado, seus projetos, seu carinho pela arte e, principalmente, pelos seres humanos, são elementos eternos de sua trajetória no mundo; são imortais.

Para quem se interessar, Nise também criou o Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952, composto apenas pelas obras realizadas por seus atendidos. O Museu funciona até hoje e recebe uma grande quantidade de pessoas. Deixo o link de acesso ao seu site aqui em cima.

Clique e veja mais sobre Nise da Silveira e saúde mental

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Texto de Pietro Navarro Portela, extraído do blog Cenat  
Pietro Navarro Portela é graduado em Ciências Sociais pela UNICAMP, atuando como gerente de conteúdo do CENAT. Tem experiência com as áreas de Marketing Digital, Psicologia e Sociologia.

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