"Nudez branca e peluda"

  –  Um capítulo de “O Último Dia de Cabeza de Vaca”, livro de Fábio Campana  –  

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Nu. Vomitado pelo mar à praia, em nudez absoluta, a vida de Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca transformou-se em tragédia de enganos e constrangedora inversão de papéis desde que pisou, pela prmeira vez, em terras do Novo Mundo.
Ao contrário de Colombo, que se assombrou ao ver os índios do Caribe despidos, Don Alvar naufragou nas costas do golfo do México e chegou à praia sem uma peça de roupa sobre o corpo. A sua nudez rança e peluda assombrou os índios, como eles mesmos lhe disseram quando conseguiu decifrar-lhes a língua.
O descobridor tornou-se a descoberta. Viu-se exposto à curiosidade. Homens, mulheres e crianças o admiravam com a mesma perplexidade com que nos deteríamos, hoje, diante de um fenômeno zoológico.
A figura magra e sem cor, de desprezível palidez de enfermo, não condizia com a de fidalgo de Espanha, da estirpe mais nobre de Jerez de la Frontera, que saíra de San Lúcar de Barrameda com a esperança de fartar-se em fortuna e glória na descoberta de um Império que esperava fosse mais rico que o do México.
Cabeza de Vaca cruzara o oceano suportando com dignidade os extravios e as tempestades. Escapou ás doenças. Ludibriou o escorbuto e a cólera que derrubaram dezenas de homens e que os levaram prostrado aos porões. Dali vinham os corpos que eram atirados aos peixes sem mesmo passar pela extrema-unção.
Suportou a colheita da morte e agora via-se reduzido à condição de prisioneiro. Tantos sacrifícios para terminar, mão na frente, outra atrás, escondendo as vergonhas e o desalento.
Extenuado, aturdido pelo naufrágio, por pouco Don Alvar não morrera no esforço para chegar a terra, agarrado aos destroços, em meio a uma tormenta de ventos que erguiam ondas invencíveis.
Tremendo de frio e medo, Don Alvar viu-se rodeado de índios. Era motivo de discussão em voz alta, algaravia incompreensível de sons guturais, com muitos dedos apontados para seu rosto. Imaginou que discutissem seu fim.
Então, um deles, com ares de chefe pelos gestos e pelas plumas que ostentava acima da cara grande e redonda, de olhos rasgados sob a fronte alta, lábios finos e nariz achatado, abriu caminho entre os índio, agora calados, e postou-se diante de sua nudez.
Mirou-o fixamente. Depois correu os olhos e, como se investigasse um animal estranho, vistoriou o seu corpo. Com um longo bastão obrigou Don Alvar a afastar as mãos e examinou o seu pênis. Voltou-se para a turba, apontou-o, e disse algumas palavras ininteligíveis.
Todos voltaram a falar. As mulheres riram e os homens se alvoroçaram. Pareciam mais calmos depois da observação do cacique Antinai,  cuja identidade logo descobriu, e que viria a ser o seu protetor.
Dois índios se aproximaram e o cobriram com um longo manto de peles que exalava odor de urina, aceito por Don Alvar porque lhe cobriria e aqueceria o corpo naquele fim de tarde gélido e de nuvens carregadas, o que lhe pareceu um gesto de amizade e proteção que o confortou.
Naquele momento, Cabeza de Vaca não imaginava que o desastre da expedição de Pânfilo de Narvaez à Florida, da qual era aguazil e tesoureiro, seria apenas o primeiro capitulo de longa sucessão de infortúnios que culminou com a sua condenação à masmorra muitos anos mais tarde, por razões de conflito e vindita ao sul do continente, em sua passagem pela América meridional.
Não lhe faltou coragem. Nem inteligência. Faltou-lhe, talvez, sorte. O que mais se poderia dizer de suas aventuras ao norte e ao sul do Novo Mundo, marcadas por incidentes e desencontros, que dele fizeram um personagem muitas vezes patético em seu anacronismo?
Don Alvar era um homem fora de sua época. Defensor de ideias e princípios inaceitáveis na Espanha de Carlos V e nas expedições que saíam em busca do ouro e prata do outro lado do oceano. Brigou por essas ideias e pagou caro por elas.
Na vida de Don Alvar Nuñuz Cabeza de Vaca nada aconteceu de maneira que se poderia esperar de um herói de seu tempo, um conquistador do Novo Mundo. Cumpriu anos de masmorra esperando a sentença final antes de ser recolhido ao asilo, neste convento onde o reencontrei.
Para ler o prefácio de “O Último Dia de Cabeza de Vaca”, clique aqui.


Fábio Campana é jornalista e escritor em Curitiba, Pr.
“O Último Dia de Cabeza de Vaca” foi publicado em 2005 pela Travessa dos Editores. 

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