O cara da água limpinha

Um conto de Vanessa Campos Rocha

Ele chegou quase pontualmente, vestido bem, mas, sem exageros, com um carro normal, ouvindo música boa e parecendo descontraidamente nervoso. Para um segundo encontro estava ótimo.

Delicadamente democrático, deu corda para uma leve discussão sobre os bares que poderíamos ir, sem música alta, sem aperta-empurra-bafo, comidinha em porções, papinho aceso, então, ótimo, combinamos, os dois felizes. A noite prometia.

Finalmente um cara sem-tanto-sal saudável. Sem muitas excentricidades, nem lindo nem feio, cheio de historinhas curtas e engraçadinhas para contar. Atento, mas nem tanto. Afim de mim, mas nem tanto. O meu termômetro chatíssimo e preocupado com novos encontros estava bem no meio. Bom!

Mas aí veio o garçom e a coisa começou a degringolar. Despontou-se no horizonte um pequeno vermelho vulcão, fazendo subir a temperatura ruim do meu termômetro. Depois de 25 minutos de pesquisa sobre a água mineral sem gás, incluindo inspeções na cozinha e o chilique para que a garrafa fosse aberta ali na mesa, a minha paciência começou a descer.

Os planos de mergulhar a preguiça de encontros com homens semi conhecidos dentro das cinco doses de vodka com morango, se transformaram em vontade louca de estar de pijama na sala vendo I Love Lucy. Sozinha.

A temperatura subiu ainda mais depois que ele resolveu explicar exaustivamente o problema das águas minerais no Brasil. A ponto me fazer imaginar que da boca dele saiam minhocas enormes fosforescentes que tinham asas enormes e me levavam voando para casa. Minha linda e aconchegante casa.

Você não sabe? A nossa água causa infertilidade, impotência, paranoia e ainda existem estudos que provam que foram sabotados por russos, causando amnésia. Tudo isso para depois sermos submetidos a lavagem cerebral. Sacô? Lavagem e água? Saquei. Você deve ter tomado muita água mesmo!

O cara cheio sem adjetivos estranhos estava se transformando, ali na minha frente, no maníaco de água e daqui a pouco me acusaria de envenenar a bebida dele e sabe-se lá o que poderia vir depois disso. O meu termômetro podia ser menos chato e mais eficiente. Do que adiantava apitar agora?

Pelo menos eu ainda podia chantageá-lo. Se eu continuasse ali com ele o meu termômetro explodiria espalhando mercúrio para tudo quanto é lado e o copo de água limpinho dele ficaria cheio dessa substância maligna! Foi ótimo! O cara saiu correndo da mesa, sem nem despedir-se. Pena que fiquei sem a carona das minhocas psicodélicas da cabeça dele!

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Vanessa Campos é psicóloga e escritora. Texto publicado na revista Escrita, em 2007.