O Dia deu em chuvoso

  –  Uma crônica de Nêgo Pessôa  –


O dias deu em chuvoso, como no verso do Pessoa, o bom Pessoa, o Pessoa 25 anos, legitimo, unblended.
O dia deu em chuvoso, como no verso do Pessoa. E tenho de sair de casa, ir a rua, a luta. Logo hoje!? Que o dia deu em chuvoso?! Saco.
Visto a bela capa porteña, apanho o belo guarda-chuva inglês, saio. Pro limpo. À chuva.
Sou tipo pra lá de ridículo com esta bela capa porteña e este igualmente belo guarda-chuva britânico numa tarde chuvosa na sede da província do Paraná, no meio desta primavera de tantas águas, sombras, lama.
Caminho sob a chuva – o dia, afinal, deu em chuvoso – e arrasto comigo um rosário de mortos. Em cada pedaço do percurso um morto aflige minha memória: do Negra, Mamãe, dona Maninha e seu filho político, Laurinho, Paulinho Pinto Dias&Ricardinho, Coski, Jamil, Marcellino, Davi Guérios, Tio Plínio, doutor Juvêncio, Heitor Valente, meu irmão Plínio, Tia Sara, Negro João, Nava, meu pai, meu irmão Luiz, são tantos, um enxame fúnebre.
Como no poema do Pessoa, o dia deu em chuvoso. E caminho sob a garoa em meio aos jacarandás, suas lilases flores, tombadas flores lilases, metáfora da ubíqua morte que docemente aperta o silencioso laço, o inexorável laço.
O dia deu em chuvoso e a tentação do abandono me acena. Por que não? Mas tenho dívidas a pagar, compromissos, encontros, o cotidiano me acossa, o pedestre me distrai, a rotina me protege. Até que um raio de sol fura a nuvem, muda o humor. Estou salvo. Hoje não voltarei a beber, hoje não voltarei a fumar, hoje não voltarei às brancas carreiras, hoje. Amanhã? Não sei. Amanhã é outro dia. Quem sabe? O dia deu em chuvoso, já o final da tarde…
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Nêgo Pessôa, jornalista e escritor paranaense (1942 – 2017). Texto publicado originalmente na revista Ideias.

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