O Grande Dilúvio

  –  Um poema de Sidney Giovenazzi  –

 

O caudaloso líquido fugidio
percorre tudo independente ao rio
a ritos de língua molhada ou ferida
ao largo do brio ou da moral digerida
A linguagem caminha e carimba
se aninha e abandona sem carícia
aproxima e repele
escracha num silêncio
esconde sob a pele
Nasceu na forma
transformou-se no disforme
a superfície adorna
à essência impõe a fome
O GRANDE DILÚVIO
Inventos
propõem voos do dilema que se arrasta
e o corpo esguio do belo
é uma arte que se afasta
Cada dia é mais noite
de orvalho e todo líquido que escorre
a ser charada
trapaça
a perenidade referencial de crise
a substituição incontinente
do gasto entendimento
pela descoberta do novo
o novo continente da Antítese
e o tempo
que também é líquido
foi mansamente se exilando à vala
à vala receptiva do fundamento
Estamos esgotados
de molduras cortinas rimas e lixas
da impertinência das coisas
marchando em busca do Nada
e é isso que justifica
uma resposta inútil
à gentil caçada
O oposto
o oposto
Mas também nos íntimos
se permitiu a deserção da Causa
A Vida não aceita que se saiba
o que o amante pode ao amado ser tomado
e o tempo acolhe tudo que ele esconde
o outro cada noite mais distante
o mergulha no dilúvio dessa mágoa
a mesma água o rio o mar a fonte
então sejamos únicos
os únicos na face desta esfera
isolados no planeta-comunhão
ou tomemos à força o que enfim nos dilacera
o que não se recebe de bom grado
e o agrado não seja mais do trato
o agradecido presente habituado
Somos o sexo oposto
Mas o desejo que aflora o dom do invento
o invento voando e se arrastando como um fardo
é pueril é tendencioso volátil pernicioso
e como tem sido bom o mal de transformar o líquido
em lava sangue cio veneno ácido viscoso
o que era anil agora fez-se amargo
quando então se vê que o Nada é um simples clássico
no ciclo interminável do refrão dos muros
gritando que não flore o medo
e nem a paixão garoa
o vinho a seiva a linfa o óleo e a saliva louca
Agora deglutimos a letal maldade
pela liquidez do rumo inevitável
do indivíduo cada vez mais unitário
de sua representação indecifrável
Não flore o medo
nem a paixão garoa
a Maldade o incêndio da água
apenas pra ficarmos numa boa…
Não há mais molduras ou cortinas
rimas ou lixas
apenas a representação de seu próprio dúbio
nada que se comprove pela História
nada além de um febril distúrbio
a linguagem tomou conta de toda somatória
fomos inundados pelo Grande Dilúvio

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Sidney Giovenazzi é músico em São Paulo, SP. Poema feito sobre  ‘O Grande Dilúvio’, de Bonaventura Peeters

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