O Menino da Serraria Três Irmãos e Seu Cavalo Fiel

Um conto de Domingos Pellegrini

De repente, uma égua nova morde freio e escravidão, conhece espora. A risada do cavaleiro a ecoar nos montes; quatro patas e uma lustrosa distribuição de músculos, couro nas botas  e no cinto, metal na fivela e no revólver; montaria e montador soldados numa só peça.

O cavaleiro ri; ecos; montes, grotas e brenhas. Numa clareira, os irmãos erguem a serraria; ele chega com a égua nova. Na garupa, um provimento de sal, quinino para o tifo, agulhas, corda de fumo, mel, pimenta. A mulher sopra brasas no fogão provisório, uma trempe sobre pedras.

Depois a mulher pare um menino, a égua come solta. Depois enxertam a égua; a serraria já pelou um monte e o menino engatinha. A égua pare uma égua, o menino anda entre as toras empilhadas a espera de virar tábuas. A serraria vai pelando os montes, os grotões, as brenhas; às vezes o menino surpreende lagartos verdes entre as toras. Depois trocam a égua nova por duas porcas parideiras, enxertam de novo a égua velha.

Se nascer potro – diz o pai ao menino – é teu.

Depois, a mãe na varanda procura o menino, ele montou o potro e saiu pelo mundo. Ela franze os olhos mirando longe, mas o horizonte está empilhado de toras; apenas um caminhão se move arrastando mais toras. Passa uma hora e o menino não volta.

O marido e os cunhados trabalham no calor avermelhado de pó-de-serra, e , se ela gritar da varanda da casa, não ouvirão. A serraria é uma fonte mecânica de uivos, estalidos, catracas; as serras cortam as toras e dilaceram o ar, até que a noite estale os grilos e os homens voltem suados, com cheiro de peroba e olhos de fome, todo santo dia.

Mas agora ele tem que parar, um para escutar o que a mulher vem dizer, os outros dois pra que o irmão escute direito e entenda depressa: a carga de toras está esparramada colina afora, é preciso serrar tabuas até a última tora; e embarcar a última tábua no último caminhão, enquanto outros caminhões desabam novas toras na clareira cada vez maior.

E com tanto serviço é preciso parar, um tem que sair atrás do menino: só tem sete anos, repete a mãe, e está solto em cima de um cavalo sabe Deus onde, sem arreio nem mais nada, decerto só bridão.

– Vai você, Pedro, pega a égua e vai; você é melhor para essas coisas.

Lá vai o irmão mais novo arrear a égua, com a experiência de quem também já fugiu – num cavalo antigo – e voltou com a vergonha de um tombo na cara, era menino, e uma costela trincada.

– Num instante acho ele e volto, cunhada – e égua pateia na serragem, sai num galope abafado. A égua não sabe que também vai buscar seu próprio sangue; e, se soubesse, decerto não ia, aflita, com fica a mãe, enquanto as serras voltas a triturar a tarde.

Um menino e seu cavalo soltos no vento – e um lagarto verde parado – mas foge logo do galope – na estrada. Um menino e seu cavalo: É teu, disse o pai. Na hora de escovar: Escova, é teu. Na hora do milho: Dá milho, é cavalo teu. Por isso, hoje o menino montou e galopa: de que adianta ter um cavalo que não se pode montar a galopar?

O menino rompe com seu cavalo, paisagens que só conhecia de passagem, quando vai com o pai de jipe até a cidade; o pai debruçado na direção como se assim chegasse mais depressa.

Agora não – para cada toco, cada lagarto, ninho de joão-de-barro, córrego, ribanceira – agora para cada pedra o menino tem olhos demorados, uma ansiedade de capins novos freme no cavalo. Até que o menino comanda pra fora da estrada, enveredam em touceiras de capim alto, até um bambuzal. O menino sabe que o coração de um cavalo é bem perto do bucho, e deixa o bicho pastar. Ouve na estrada um galope cansado, depois de novo silêncio, depois o grito preto de um anu. Depois o vento balançando os feixe de bambus, estalando, cada bambu da grossura de coxa de um homem, afinando até uma altura que tonteia.

O cavalo mastiga solto no silencio, mas todo movimento do menino ele vigia. O menino procura nas moitas seu troféu – uma cobra cega, por menor que seja: morrerá de pau, em casa será mostrada; dirão: ele já é um homem, saiu a cavalo, matou uma cobra de pau. O cavalo mastiga, o menino segue uma correição de formigas.

E uma cobra espreita com olhos avermelhados.

De repente, o menino vê surgir o homem afivelando as calças, uma anu avisa e o menino estaca, o pau no ar, o corpo meio virado na direção duma moita, um caroço de susto na respiração; espera. O homem olha o menino, o menino olha homem, nos olhos; entre o cavalo e o menino agora está esse homem, que deve ter saído da estrada pra se aliviar no mato – e agora avança devagar.

O cavalo sumiu da vista do menino, está tosando grama atrás do bambuzal. O menino sente o peso do pau de matar cobra esquecido na mão – e estremece – mas o homem, de vagaroso que vinha, de repente pula e vira borrão no ar, agora o menino sente o bafo de pinga e luta já no chão, um grito quase sai mas sufoca num tapa pesado. Na zonzura o menino vê os bambus oscilando, umas pontas de nuvem e uma cobra dançando já de cabeça vermelha na mão do homem.

Com a outra mão o homem debruça o menino, vai lhe puxando o calção; aparece a carne branca que o homem esmaga no chão, os ossos do menino afundam no humus, e no peito mais um grito bate sem achar saída; e, quando sente nas coxas um toque impreciso, de cabeça de cobra, torce as tripas com o grito que desceu e quer sair por trás, morder se pudesse.

Mas não é mais preciso; passa no homem um estremecimento, ele para; e antes de compreender o menino já adivinhou: o cavalo. Bufando raiva, o cavalo está pateando – e o menino mistura medo e raciocínio, rola no chão com o calção prendendo as pernas, mas não tem tempo de arrumar: ali diante dele um cavalo pateia um homem, provando que os cavalos, como diz o pai, zelam da gente quando bem zelados.

Os olhos do menino acham o chão o pau, cacete de galho verde cortado pra matar cobra – e arremessa, com a pontaria do medo e do susto, e acerta. O home se encolhe em dor, e rola – e o menino – cavalo atrás – desembesta no mato, irrompe na estrada erguendo o calção, monta e galopa com os cinco dedos de um tapa grudados e inchando na cara; chorando. Nessa mão vermelha estampada na cara, lambuzada de lágrimas, a poeira dos caminhões vai grudando, como um alívio, como uma pomada, até secaram as lágrimas – quando o menino topa com o tio na égua velha, já quase noite, na encruzilhada.

O tio esbraveja: que a mãe já está feito doida, que é a segunda vez que bate a estra ponta a ponta procurando fujão, moleque largado, tua mãe já deve estar até desfiando o terço por tua causa. Passa um caminhão, o clarão enerva os cavalos, bate na cara do menino.

– E o que foi isso na cara?

– Nada.

Apareceu o vulto na serraria, o cheio novo das toras, óleo diesel, serragem. Não, não contará nada. Ficará um segredo, para o resto da vida, entre ele e o cavalo.

– Tanta tora pra serrar e ter que corre atrás de bezerro fujão.

As três casas; mas só a casa do meio está de lamparina acessa; os vultos das tias ocupando a janela, a mãe saindo e estacando na varanda, as tias atrás, amontoamento de aflições. E o pai agora, a irmã e as primas, as curiosas. O pai vem ao encontro dos cavalos.

– Aconteceu alguma coisa com ele, Pedro? Hein, moleque?

Na varanda a mãe repete a pergunta, todos querem saber o que aconteceu.

– Não aconteceu nada, mãe.

As tias alvoroçam; deve ter acontecido alguma coisa.

– Nada.

E descem dois homens dos cavalos.

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Domingos Pellegrini Jr., escritor paranaense. Conto extraído da antologia “Assim escrevem os paranaenses”, Editora Alfa-Omega, 1978.

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