O mercado

Um conto de Lange Rocha

Uma vez por mês tem uma reunião para saber se anda tudo bem no mercado (não o financeiro). O mercado mesmo, desses que vendem mercadoria; e a conversa era sempre a mesma: os donos do mercado falando o quanto o mercado havia crescido, o quanto tinham lucrado e estavam ali para agradecer os colaboradores. Eu não entendia quem eram esses caras, os colaboradores, e porque eles estavam falando pra gente. Só sei que pra nós que trabalhávamos mesmo igual uns burros, nada de agradecimentos. Pior, nada de aumento, a não ser de trabalho. Mas, tá!

O que eu queria dizer mesmo é que este mês foi muito diferente. Já começou assim, sentamos em círculo; já achei estranho, sempre foi em fila. Mas vamos lá. Aí quase caí da cadeira. Foi quando eles começaram a falar que gostariam de saber se nós estávamos contentes em trabalhar aqui. Nossa, passou um monte de coisa na minha cabeça.

“Essa é a hora! Vamos dizer tudo que está engasgado na nossa garganta.. Enfim vamos ser ouvidos. Todos os maus-tratos vão ser revelados e vai ser hoje!” Mas um susto me fez sair dos meus pensamentos.

– Uma palavra, vamos começar por você.

Apontaram pro meu melhor amigo, meu coração acelerou. Suava frio, as pernas ficaram trêmulas, mas neste instante, pensei: “Esse é o cara. Ele pensa como você e ainda ele é um dos nós; ele sabe tudo o que nós passamos, vai falar tudo o que esses filhos da puta precisam ouvir. Enfim, começamos bem. Ele fala e ele passa a bola para mim, aí a gente detona esses caras.”

Mas não foi nada disso, ele simplesmente olhou pro chefe e disse: Eu adoro trabalhar aqui, vocês são ótimos, tratam a gente com respeito, etc, etc. Putz, meu amigo… Meu coração parou, fiquei louco, não me cabia na cadeira, quase levantei e bati no cara. Já não sabia se eu tinha raiva dos caras chefes, ou do meu amigo que não disse nada.

Porra, eu adoro trabalhar aqui… Tudo que a gente falava quando estava repondo as mercadorias sem poder comer sequer uma banana… Repondo chocolate, biscoito, iogurte, e nada de poder pegar um sequer. E a fome que dava, meu…

Que raiva, e que só aumentava. Cada um que falava depois dele eu ia lembrando do que a gente tinha combinado se algum dia a chance aparecesse. Não era o que estava acontecendo. Mas continuei confiante, afinal, nós eramos em muito a maioria. Ainda tinha pra mim que alguém ia dizer a verdade. E foi indo, andando a vez de quem estava no círculo. A cada um novo que falava, então mais eu ia vendo o quanto a gente é fraco e desunidos. E foi passando o Bolota, o Vesgo, o El Flaco, o franzino. Até a vez do Montanha chegou e nada, nada. Quando eles se aproximaram de mim eu tinha tudo o que dizer, tava tudo na minha cabeça. Pronto eu vou dizer tudo, foda-se mesmo que seja a última vez que eu fale, pensei.

Então o chefe olhou pra mim e com aquela voz imponente, disse:

– E aí, você, Wilson, também adora trabalhar aqui?

Acho que fiquei uma hora parado sem ação, estático mesmo, sem saber o que dizer com um medo estrondoso. E agora? Mas eu pensei, essa é a hora. Nunca mais esses caras vão dar essa chance. Comecei assim: “Eu odeio, vocês não respeitam a gente e pagam mal. Não dão um minuto de descanso, sequer um lanche ou um almoço que presta. Gente é tratada como cachorro…” Fui falando tão rápido que duvido que eles entenderam pelo menos a metade, pois a resposta deles me surpreendeu ainda mais.

O chefe chegou mais perto de mim e soltou:

– Eu sabia que você é o Che Guevara do mercado!

Olhei pra ele e fiquei sem saber o que aquilo queria dizer, eu não sabia nem quem era Che Guevara. E o pior não foi a fala. Foi ele virar e seguir adiante sem mais nenhuma palavra, nada. Fiquei cego e surdo e de raiva saí gritando que eu era o Che do mercado. Meus amigos, aqueles que eu julgava meus companheiros, caíram na gargalhada e depois silenciaram. Somente um é que foi solidário a mim, o Mundinho. Ele gritava junto comigo, ninguém entendia o que ele também queria dizer. Só sei que saiu comigo pelo mercado aos gritos até a rua.

No outro dia voltei ao trabalho, pensei que ia ser um acontecimento. Quando entrei porta adentro, imaginei que todos iam me aplaudir, gritar meu novo apelido, ou o nome Wilson em outro tom: Wilsooon! Eu estava faceiro, louco pra de hoje em diante ser o herói dos pacoteiros. Mas entrei e nada. Ninguém sequer me viu. É, cara. Esses são os meus amigos. Nada, nenhum e ninguém. Então o meu chefe, chegou perto de mim e perguntou econômico:

– Então, está mais calmo?

Nossa, me deu muita raiva. Calmo, calmo? Como assim? Eu estava é furioso, a minha vontade era de repetir tudo de novo, inclusive gritar o apelido pra mostrar que não tinha vergonha. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele mandou:

– Vai para o depósito empilhar aquelas caixas!

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Lange Rocha é psicóloga, servidora pública e atriz. Uma das fundadoras da Casa do Teatro, em Foz do Iguaçu. Conto publicado na edição 33 da revista Escrita.