“O mundo é antigo demais”, um texto de Mariane Cardoso 

O mundo é antigo demais

As certezas apodreceram.

Você prefere acreditar em horizontes brancos. Em janelas peroladas, entre as ruas cor-de-rosa e vidros blindados. E está tudo em seu devido lugar, ou ao menos deveria estar.

Tudo tão incerto, meu bem.

O futuro, com suas rotas desenhadas à palma da mão, foi um mapa que esquecemos de guardar. Nossas digitais são queimadas à base do amor, de revolução, daquilo que um dia agarramos sem descansar até que a pele fosse desgastada sem volta.

Nossas verdades penduradas em rodas-gigantes, as luzes néon que de súbito clareiam ou escurecem nossas certezas.

Chegamos, finalmente, à sublimação. Tudo nos toca e nada nos envolve. Você prefere acreditar em casos de sorte, unhas e olhos, portas de vidro.

Oh, mon amour… O mundo é um velho cruel, mas não profano.

Quantas almas passaram por este lugar sem enganar ninguém? Elas preferiram acreditar que isto era a felicidade. Seus pés arrastavam-se pelo quarto, elas não tinham tudo o que queriam, mas tinham o suficiente. E elas nunca se perguntaram até que o ponto suficiente é suficiente.

Tudo tão incerto, meu bem.

Eu preciso confessar que transgredi qualquer pudor. Virei a atriz que você beija noite adentro, fingindo não ser dona de si, mentindo ao proferir palavras, idealizar gestos, fragmentar expressões. Não sei até que parte de mim eu cheguei.

Mas você prefere acreditar em poemas infinitos.

Então, de que me serviriam os versos “trapaceia o próprio script/dramaturga de uma figa”?

É como eu prefiro acreditar:  você tem que dizer que fica. Se você for embora, é só mais um castigo. Se ficar, vai poder dizer que já sabia.

Tudo começa a ficar bonito.

Intérpretes às escondidas.

Mas, meu bem, entre os edifícios onde as almas dormem, existem mais silêncios que nos mares do Oriente.

Nossas dúvidas são sopradas dentro do tempo.

Os muros permanecem mudos.

Os sóis permanecem sós.

E os amores, meu bem… Os amores permanecem atores.

Tudo tão incerto.

Mariane Cardoso à época da publicação era estudante em Cícero Dantas, BA. Texto publicado originalmente na revista escrita número 26.

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