O pai. E a filha do pai

Um conto de José Maschio

Paiiiiiiiiiiiiii.Paiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii tem sangue!

O pai, na cozinha, a preparar o café da manhã, não deu importância ao primeiro grito. Todo dia, a mesma rotina. Café forte, quase sem açúcar, para ele. Pão de forma (ele odiava pão de forma), presunto e tomate.

Quase um bauru. Só não tinha queijo, ela, a filha, tinha alergia a lactose e leite. Chá a acompanhar. Não era bauru também porque não tinha picles. O bauru original leva picles. O segundo grito incomodou. Sangue onde, quis saber o pai, preocupado. A filha, voz aflita, respondeu. Sangue na chechênia, paiiiiiiiiiiiiiii.

o pai largou o copo de café, quase em um susto, sobre a mesa. Sangue na chechênia. Puto que o pariu, sangue na chechênia. Sangue na chechênia. Tinha chegado a hora das verdades físicas. E , ele, pai não tinha se preparado para isso. Pensava que tinha, mas contra o sangue na chechênia ele não tinha explicações plausíveis ou possíveis.

É preciso explicar. O pai era careta, quase moralista. Tinha como verdade absoluta, quase um dogma, que sexo e coisas afins eram coisas que só os casais deviam discutir ao resguardo de opiniões alheias. Segredos de alcova, isso era. Se ao menos ela estivesse aqui para ajudar. Ela era a mulher, morta no parto da filha. Ele sentia saudades dela e mais: sentia a necessidade da ajuda dela para cuidar da filha.

Na primeira infância já fora difícil, mas tinha logrado êxito. Afinal, filhos antes dos 10 anos não possuem sexo. São crianças. E tinham coisas que tinham sido fáceis. Ensinar a filha a gostar de animais, especialmente passarinhos, a ler e  ter gosto da leitura. E a gostar de futebol e do River Plate, coisas muito
fáceis. Afinal, quem não ama o River? E, ao ouvir o segundo grito angustiado da filha, o pai se deu conta de algo espetacular. Não estava preparado para o sangue da filha.

Sangue na chechênia. A mãe do pai, portanto avó da filha, contava de coisas da Itália, mais precisamente de Bérgamo (que a Itália são muitas itálias. com dialetos diferente, inclusive) em que a avó dela, portanto bisavó da filha ou tataravó da filha. Ele se confundia sempre nessas coisas de ancestralidade. E a seguir: que a avó dela (a mãe do pai) gritava para as meninas, em um tempo antigo em que não existiam calcinhas, “Cuidado, vai mostrar a Chechênia”.

E ficará Chechênia. Ele pai solteiro, ou viúvo, ou solito, a cuidar de uma menina. E nunca se incomodara com isso. Moleca, a filha era companheira em tudo. Substituía até o cão de companhia, ou gato, que as pessoas usam hoje para disfarçar a solidão na multidão. E as pessoas são animais incríveis, acabam mais solidários a bichos do que a própria espécie. Não era o caso do pai, que amava sua filha incondicionalmente. Só não estava preparado para o sangue na Chechênia. Puta que pariu, sangue na Chechênia.

Paiiiiiiiiiiiiiiii, é muito sangue pai…

O terceiro grito foi o suficiente. O pai desesperou-se. Correu até o banheiro, empurrou a porta, sempre entreaberta, isso coisa dos tempos de pacto e pai e filha, quando ainda precisava limpar a menina criança. E o pai teve uma revelação: assustada, a filha segurava um papel higiênico coberto de sangue. O pai abraçou a filha. O susto tinha virado felicidade. A filha, nada entendia o sorriso do pai. Aflita, perguntou. Paai que sorriso é esse? O pai, sereno, feliz, quase sublime, respondeu. Você virou mulher, filha. Amanhã te compro absorventes.

José Maschio é jornalista em Cambé, Pr. Texto publicado originalmente na revista Escrita nº 27.

Arquivos

Categorias

Meta