O parto do ler

  –  Um texto de Fabiula Wurmeister  –

 
Nestes meus longos dias de devoção quase compulsiva à leitura, percebo as influências que cercam cada um destes escritores, sejam eles aquele já consagrados, ou aqueles que o fazem sem pretensão alguma. Assim, aos poucos vou conhecendo o intimo de cada um deles, suas revoltas, orgulhos cinismos e vergonhas. Vejo ainda as dores sutilmente gemidas em preto e branco. O vermelho aqui fica reservado as ilustrações da capa e aos olhos daqueles que se vem diante do espelho das páginas. Por que insistimos tanto nessa catarse psicanalítica torturante, quando basta fecharmos este livro e depositá-lo junto aos poeirentos volumes na estante?
Lá, naquelas fileiras e pilhas desordenadamente organizadas, estão histórias mal folheadas, mas completamente devoradas e outras que num primeiro momento nos seduzem e em pouco tempo preferimos abandoná-las. A princípio essa recusa é feita sem nenhum remorso, como nas vinganças. Mas como num caso de amor que nunca se aquieta, a sedução materializada em folhas de papel impressas volta a nos lançar olhares tentadores, justo quando mais queremos ser observados e também devorados como histórias deliciosas e desejosas.
Lembro-me que estas primeiras histórias ou as mais marcantes delas – e consequentemente vício pelo cheiro que elas empregavam no papel em perfeita química com a tinta da impressão –  vieram daquelas páginas de jornal de anteontem que enrolavam a carne e as voltas de lingüiça compradas no já familiar açougue da pequena cidade do mais novo velho oeste de céu azul, brilhante e quase sem nuvens. Dali, tomaram vida e como fantasmas me seguem até hoje, religiosamente, toas as noites antes de dormir.
Agora, além da dependência quase solitária, penso em formar uma comunidade alimentada pelo mesmo cheiro de mofo e tinta fresta. Pela mesma letargia, pela mesma sensação entorpecente. Pela mesma euforia. Pela mesma letargia, pela mesma sensação entorpecente. Pela mesma euforia. Pela mesma depressão. Pela mesma vontade de sempre ter mais, mais e mais, que, se somados, não inteiram um. A memória e a absorção já não são as mesmas, não suportam levar a carga sozinhas, precisam de um ventre que se ocupe disso. Tenho a semente, quero o solo, quero quem o regue, pode-lhe os galhos e colha os frutos. Quero um filho. E só o terei depois de alcançar a combinação perfeita entre os infinitos aromas ainda guardados dentro daqueles volumes que vejo vagando sob lençóis que ainda não nasceram.
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Fabiula Wurmeister é jornalista em Foz do Iguaçu. Texto extraído da revista Escrita 1, editada em 2006.

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