O prestígio do livro…

  –  Uma crônica de Áurea Cunha  –  


Nos “auês “ literários desenvolvidos nesta  semana pela Associação Guatá – Cultura em Movimento em escolas municipais, percebe-se o gosto das crianças pela poética do  simples. Cantigas de roda, o som tirado das palmas das mãos, latinhas com sementes improvisando chocalhos  e tambores alternativos fazem  a festa.
Mãozinhas dadas para formar o círculo, risos incontroláveis , um dedinho que se levanta para fazer um comentário. É neste cenário que se apresenta um  universo de possibilidades, de interações e trocas.
O velho disco de vinil entra em cena e as cantigas latentes que precisariam de um tocador para se manifestar, aparecem escritas em pincel branco. “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada…”.  E com o velho  vinil surge a figura do avô. É quase sempre na casa dele  que a criança conheceu “o disquete, também  avô, só que do pen drive”. Daí, suspenso no ar, o  “bolachão” decerto que vira  disco voador na imaginação dos pequenos; tenho certeza disto, porque também sinto uma vontade incontrolável de arremessá-los, imaginando uma revoada musical, numa experiência de aerodinâmica!
Mas o que salta mesmo aos  olhos e causa até certa estranheza em tempos pós modernos e de alta tecnologia é que o livro resiste,  bravamente,  no gosto da criançada. Oxalá, continue assim.  No “auê literário”, a caixa de livros colocada no centro do palco, por alguns minutos, vira algo de grande cobiça. As crianças literalmente “voam” sobre a caixa a procurar um livro do gosto delas. Momento tenso!  Às vezes a situação pede que se organizem os pequenos em grupos menores para diminuir o tumulto. Afinal, sempre tem um  exemplar para os diversos paladares. Alguns leem em grupo,  outros se afastam para uma leitura mais solitária. Mas o importante é que a paixão ainda se faz notar, principalmente nos mais jovens. E na hora de devolver o livro à caixa, sempre tem um que quer esticar  mais um pouquinho o tempo para saborear mais.
Nesse trabalho, percebe-se o quanto cada um tem seu gosto e perfil. Seja na hora da escolha do livro, na apetência rítmica ao experimentarem um instrumento de percussão ou no uso imaginativo das coisas. Dá gosto ver uma criança dispor de vários instrumentos que estavam isolados, simular uma bateria por vontade própria e tirar do conjunto um som muito pessoal. Foi como vi, por exemplo, o Matheus Franco, de seis anos, fazer e se expressar, confirmando que a escola pode ser sim um grande espaço mágico. Em sua volta, a marcação das palmas. …E olha  uma geração de  músicos  saindo daí, gente!
A  escola é mesmo um lugar de afetos muito especiais, ainda mais com um “auê” assim. O que seria de nós sem o simbolismo de coletividade que está nas cantigas de roda? E a vivência de se declamar um poema sobre as quatro estações, ainda que falado na velocidade de nossa timidez e vontade de que o disco da exposição virasse mesmo voador e ajudasse logo naquele momento inquietante? Melhor que tudo, perceber ao final o acolhimento das palmas dos outros na roda, frutificando a vontade de ler mais poemas numa próxima vez.
É assim, educar e educar-se. Se o  saber é  o  futuro, não se pode negar que haverá o que se buscar no passado. As vivências cotidianas e os livros estarão à espera de serem colocados juntos. E para esse encontro, a  escola ainda é o melhor veículo para se  viajar no tempo,  seja lá para onde se queira ir e visitar o conhecimento. E a poesia? Ah! Esta só pode ser o ventinho na janela oferecendo carona.  Salve!


Áurea Cunha é fotojornalista e participa do programa Tirando de Letra da Guatá.
 

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