O último eclipse do Sol

Uma crônica de Montezuma Cruz

Eclipse total, em 1994. Turistas japoneses observam o fenômeno no Parque Nacional do Iguaçu. (Fotos: Áurea Cunha)

Três de novembro de 1994, quinta-feira: enquanto cientistas montavam seus gigantescos telescópios e lunetas às margens das Cataratas, ricos, classe média e ralé desfilavam pelo centro de Foz do Iguaçu. Participantes da concentração com aproximadamente mil pessoas na terceira pista da Avenida JK divertiam-se com as evoluções e o canto do grupo Quintal de Clorofila. O palhaço Mazzaropi também dava o ar da graça. Todos, suadíssimos.

Muito mais que os cinco minutos de espetáculo com percussão internacional, o último eclipse do Sol no século passado transformava-se em manifestação de fé. Uma das músicas dizia: “O Sol vai trazer muita paz para todos.”

Às 9h já havia gente na avenida. Ao som de uma fita-cassete com música da Xuxa, o palhaço jogava balas para as crianças. Homens e mulheres trajavam roupas bonitas. Chapéu preto na cabeça, o cuiabano aposentado, ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira, Antero Silva, esnobava um impecável terno branco. “Só vi eclipse quando era menino”, dizia.

Meia hora antes da escuridão, o emocionado maestro da Banda Municipal, Pedro Marques, lembrava-se do primeiro eclipse que vira, em 1940, na sua terra natal, Manicoré (AM). “Eu não usava proteção alguma de minhã mãe. Criança, sempre teimosa, né?”

Os então secretários municipais Hugo Galeano (Fazenda) e Aluízio Palmar (Comunicação Social) conversavam com a multidão. “Olhem aquela estrela ao lado direito do Sol e da Lua. É o planeta Vênus, o mais próximo da Terra”, explicava no alto de um trio elétrico o diretor da Fundação, Haroldo Alvarenga.

Às 10h43 a noite chegava. A Lua cobria o Sol. Ouviam-se palmas, assobios e gritos. Ônibus desciam a avenida com lâmpadas e faróis acesos.Nos postes, algumas luminárias também acenderam. O pedreiro mineiro e pastor evangélico Onofre Dimas Amâncio, que vira um eclipse aos dez anos de idade, durante a colheita de café com o pai e os irmãos, dava o seu recado: “Meu pai acendeu uma fogueira antes de chegar a escuridão. Deus, que tudo fez, deu inteligência ao homem, mas isso não permite que ele penetre em seus mistérios.”

Quatro minutos, e pronto! – após contemplarem o céu, os iguaçuenses se voltavam à mesmice. Membros da Sociedade Astronômica do Canadá comemoravam ter visto o “anel de diamante”, cuja visão é possível logo depois da Lua encobrir o Sol.

Com equipamentos montados no antigo lixão do aeroporto Internacional de Foz, esses canadenses comandados por Edward Kaprielian viram ainda o shadow band, uma espécie de sombra que dá a impressão da existência de duas luas. “Fantástico”, comemorava Kaprielian.

Em casa, minhas filhas Ana Terra e Bárbara Cristina emocionavam-se quando começou a escurecer, o galo e as galinhas dos vizinhos no Bairro M’Boicy subiram no poleiro, e o papagaio também procurou o dele.

Por alguns minutos, os bichos silenciavam. Diante da nossa pequena compreensão do Universo, a Mãe Natureza e os astros se eternizavam mais uma vez naquele dia inesquecível.

Reportagem da Rede Globo, 1994

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Montezuma Cruz é jornalista e escritor em Porto Velho, Rondônia. À época do último eclipse total do século XX, em 1994, trabalhava como repórter em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado na revista Escrita.

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