Ode a Curitiba

Um poema de Fábio Campana

Quero a cidade que me impulsa,
não essa que se discursa,
que se excusa, amordaçada,
presa em seu castelo de olhares.
Não essa, fotogênica,
hierática, higiênica,
desenhada em linhas frias
com suas pobres luas de acrílico.
Curitiba, azul, verde, gris
intenso clamor de abismo.
Quero a cidade que me perdeu
num cárcere de cinzas.
Seus pedaços de silêncio,
seus vapores de medo,
a surdez de seus invernos,
o fio de seu grito,
a cortar a neblina,
a cidade fora de seu tempo.
Azul, verde, azul
lisa pedra do enfado

II

mil vezes exilada em si mesma, em sua gente
limbo de solidão e fastio.
Sou quieto relâmpago a ferir a noite
Chama venérea a percorrer vielas,
ruas de metáforas, odor escuro,
eu a reconstruirei, obstinado,
à imagem e semelhança de meus desatinos,
à margem de sua loucura.
Curitiba, gris, violeta, azul
reino secreto, indevassável.
Acaricio seu rosto de pedra
no céu da tarde que filtra
música, cantatas, sinfonias,
para despertá-la lânguida,
felina, gata no cio,
lúbrica, uterina, concubina.
Curitiba
que ninguém nos veja,
cúmplices, a sorrir,
quase eternos,
excluídos da verdade oficial.

III

Em seu vestido de águas
bordado de prata e angústia
Curitiba nunca expõe
a nudez de suas mágoas.
Prefere a calma aparência
de quem não briga, não pulsa
não tem vontades, não quer
enfrentar os seus demônios
que encerramos no sótão
do impossível esquecimento.
(Quem plantou nas avenidas
as flores quase reais
que escondem nossas feridas?)
Não se perca o visitante
no risco certo das ruas,
na pequenez das igrejas
na geometria solene
do sempre mesmo discurso
que oculta nossos vícios
e não diz os nossos crimes.

IV

Veja a arquitetura dos muros
feita de nossas tibiezas
atrás deles se escondem
a virgem e os seus amantes
o religioso pedófilo
as sociedades secretas
o jogador que aposta a vida
num único, repetido lance.
(Os cenários que não refletem
no espelho feito de saudade e
pinheiros da Helena Kolody.)
Lá estão nossos amigos,
tão poucos, e os desafetos,
tão muitos, rogando praga.
Mil olhos nos guardam
pelas frestas das janelas
mil dedos apontam para
denunciar nossas ideias.

Para contar Curitiba
é preciso investigar
a luz de suas entranhas
revelar as suas crenças
confessar os seus pecados
que guardamos nos baús
das famílias decadentes.
Espiar o agiota ansioso
a dividir nossas dores
em prestações mensais
abençoar as adúlteras
e os santos que pecam
na sacristia, depois
da missa de domingo.
Quantas sociedades secretas
quantos ritos de ódio,
baile de equívocos
as vítimas de olhos
deslumbrados, amargo
sorriso diante da inefável
retórica dos crápulas.
(E não esqueçamos de nós,
poetas sem versos,
sem palavras.)

V

Feito isso estamos prontos
para amar a cidade
que nos pariu.
Assumi-la sem pejo
o sotaque fechado
admirar seus vitrais sem cor
contar os grotescos ex-votos
no túmulo de Maria Bueno.
Ouvir as pequenas histórias
do amor e do desamor,
suportar a algaravia nos templos
onde os falsos pastores
para arrecadar o dízimo
anunciam aos gritos
o Juízo final.
Não sabem que Curitiba
parou os seus relógios
para conter o tempo
e adiar definitivamente
o dia do nosso
inevitável julgamento.
(Curitiba, azul, verde, gris,
de minhas madrugadas
agônicas

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Fábio Campana é jornalista e escritor em Curitiba, Pr.

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