Olfato, paladar e o “toque”

Uma crônica de Juliana Lyra

Cheiro… Gosto… Textura… Três componentes essenciais que permitem um leve arrepio naquele instinto escondido, que alguns poucos mortais conseguem “afetar”. O sabor de um beijo nunca se repete… O perfume percebido é algo que transcende a compreensão racional e o tato das mãos que percorrem o copo com o auxílio cego da visão, é sempre único.

E isso não é paixão. Isso não desperta o inconsciente bobo que faz o ser humano ceder à sua limitada expressão de si mesmo. Antes, paixão tem o “toque” do olhar…tem os ouvidos disponíveis e a explosão de palavras… Tudo começa com o antes… e então surge a luta constante de não se entregar. E ponto. E pronto. Decisão! Ok! Inútil negação que nos alimenta e nos protege do desconhecido… e eu não sei mais o que pensar … não sei mais o que falar, não consigo ouvir direito porque fico pensando onde estou escondendo minhas mãos e meus olhares… e, me escondo de mim, sem perceber que não estou me poupando, mas me entregando sem querer, desmontando aquilo que eu sempre quis evitar…

Pois é… ainda não há paixão… existe apenas a guerra de você consigo e com seus pensamento loucos, a luta entre enfrentar aquilo que pode te levar o inferno ou ao céu o medo daquilo que ainda não foi, mas que talvez possa vir a ser… você já não tem certeza de mais nada.

E não é paixão! é pensar que a fuga para outros braços, para outras experiências, possam te livrar dos absurdos bestas que você sem querer começou a questionar. Já é a confusão total entre o que você sente e o que gostaria de sentir. Tudo bem que ainda não é nada… muito menos paixão… mas, quando você sente o “toque” dos braços que se encontram sem querer, o desvio dos olhares e as escolha daquilo que vai ser dito, percebe que suas certezas devem ser questionadas e que pensar em alguém em grande parte do seu dia pode ser uma pegadinho do seu cérebro para tentar suprir algo que talvez não tenha ficado bem resolvido em sua vida…

Nada é paixão! Muito menos quando você vai percebendo alguém que te aceita, te respeita e não perde a oportunidade de te agradar de alguma forma, nem. Isso tudo é só ilusão que logo passa… e na sua cabeça… na sua cabeça fraca e teimosa, você já se perdeu…

Mas ainda não há paixão… E não sei em quantas teorias ainda posso me afundar para explicar que não existe o incontrolável  e que nossos sentimentos dependem de nós mesmos, que tudo bem escolher estar junto, mas apaixonar-se… Isso é entrega de quem não se encontrou. Tudo pode ser racionalmente explicável e aí… Jogo fora toda teoria e já estou entrando em um universo desconhecido…

E os olhos fazem sentido. E os lábios são compreendidos. Os ouvidos sempre atentos…

Então, na timidez de um momento inesperado, o gosto torna-se necessário, o cheiro insubstituível e a descoberta das texturas inevitável. E isso nem é paixão… Ah, não é mesmo…

Acontece… que eu não sei nada sobre aquilo que não é…

Juliana Lyra é servidora pública estadual em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado originalmente na revista Escrita número 27.