“Olhos tristes”, de Rafaela Martins

Prosa poética, por Rafaela Martins (*)

“Equilíbrio’, de Dieguito

 

É que os meus olhos são tristes e estão cansados de ver sorrisos hipócritas que fazem com que os outros olhos tenham pálpebras apertadinhas, escondendo todo o desespero e todo o Prozac por trás de cílios, secreções, glândulas, córneas, pupilas, íris, ligamentos, veias, escleróticas, coroides, retinas, máculas lúteas, fóveas e nervos.

Meus olhos procuram por olhos tristes e revoltados. Esses são cristalinos, desvendam a alma. Meus olhos procuram uma mirada que, com raiva e desejo, transporte o seu portador para dentro do meu ser. Procuram por essa coisa-pessoa-alma-sentimento que nada contra a corrente do meu sangue, que pula as ondas da minha pulsação. Essa coisa-ser minúscula e gigantesca que me arrepia a pele, que me faz gozar.

Meus olhos evitam mirar a qualquer um. Na maior parte do tempo eles desviam, se esquivam de uma humanidade qualquer. Desses vulgares que riem alto de piadas infames enquanto onças-pintadas morrem em uma das milhares de queimadas criminosas no Pantanal.

Desses que passam apressados pelas calçadas, esbarram na gente, e ainda, dissimulados, procuram mirar nossos olhos, mas não movem sequer um músculo facial no esforço de uma palavra: “desculpa”.

Meus olhos estão cansados de uma busca por algo que é raro. De tempos em tempos eles se confundem e deixam entrar um tal qualquer. Veneno que endurece o coração pouco a pouco e que traz desesperança e mais e mais cansaço.

Meus olhos miram telas de computador, celular, tablet, televisão e cinema. Raramente miram telas pintadas com o que existe de bom na inteligência humana. Nas imagens, homens pretos atropelam uns aos outros para pegarem a carne bovina de uma carreta tombada na avenida, enquanto isso, policiais pretos jogam spray de pimenta em seus irmãos pretos. A ópera da miséria humana. Meus olhos veem. Primeiro no celular, depois no notebook e então na
televisão. Quando a cena chega ao cinema, dezenas de pálpebras semicerradas, atrapalhadas por gargalhadas agressivas.  Meus olhos inundam, querem chorar até meu corpo todo virar água.

Minha boca já não pode sorrir porque meus olhos precisam ver. Precisam estar atentos para todo esse horror pandêmico que só pode ser o prenúncio de um fim. Não o fim do mundo, o fim dos olhos, dos olhos humanos.

Mas meus olhos insistem. Eles querem encontrar seus pares castanhos, azuis, pretos, violetas, cinzas, verdes. Eles querem entrar no universo chamado “corpo” desse ser luz. Eles procuram olhos tristes e revoltados. Olhos de alguém que está no canto escuro da sala fumando um cigarro. Um cigarro mantém os músculos da mandíbula contraídos. Isto impede o sorriso e permite um olhar atento. Impede também a boca de falar, de inventar desculpas e de fazer
promessas, de criar decepções.

Meus olhos querem muito. Querem ver tudo, todas as coisas que existem no mundo. Querem ver formigas saúva-da-mata carregando pedacinhos de pão de forma, querem ver a menor ruga no rosto da vendedora de frutas do calçadão, querem ver a bolha no pé do agricultor, a gotícula de suor no pescoço do moço que come Burger King, o fio solto na manga do vestido da noiva, a mancha de Coca-Cola no banco do motorista de Uber, a primeira gota de
chuva a cair até encontrar as águas do rio. Eles querem ver porque eles querem entender. Meus olhos sentem amor e querem ser amados. Eles também querem mirar o que é grandioso demais. São solitários e brilhantes assim como o são as estrelas no cosmos. São pequenos e, ao mesmo tempo, gigantes, como elas. São complexos e singelos como elas, são agitados e estáticos como elas.

Eles precisam de rotação, de translação e de revolução.

(*) Rafaela Martins é atriz e doutoranda em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra (Portugal).
(**) Dieguito, brasiguaio, autodidata, ilustrador nas horas vagas, desempregado em algum lugar de Misiones, Ar.