Os anos loucos de Londrina

  –  Uma visão do tempo em que se acendia cigarro com nota de dinheiro, pelo escritor João Antônio. Ilustrações de Kambé. Reproduzido da revista Helena, número 1, editada em 2013.  –

 
Corria um tempo em que, como se diz, se amarrava cachorro com linguiça e se ganhava dinheiro a rodo. Amavam – se mulheres finas, admiráveis, beldades que se revezavam, lindas e muitas trazidas e chegadas de todas as partes. Havia chilenas, argentinas, mexicanas, bolivianas, as melhores cariocas, gauchas, paulistas e uruguaias. Só se bebia champanhe francesa e scotch importado. Os cigarros eram americanos e acesos, alguns ao fogo de notas enroladas de cinco mil réis, na meio penumbra de mesas ricas dos bordéis de Londrina. O dinheiro rolava solto, ágil, fácil e muito. Inesperado.
O herói era o café de quem nunca se esperou tanto. A heroína era a terra roxa, firme, forte na cor e na fertilidade.
Mas Londrina aceitava, o desafio da loucura do café e assumia a si mesma. Esbanjando à grande, gulosamente festiva e boêmia a cidade cumpria a sua contradição – chegava aos vinte anos de vida e já era capaz de ganhar mais do que produzia, gastar mais do que necessitava, aproveitar menos do que podia assimilar. E, sem nenhuma raiz, trouxe todas as raízes de fora.
Como num golpe, como num susto, o movimento inflacionário deu partida. O meio circulante, o dinheiro, de um salto acompanhou o pulo dos preços do café. Fazendeiros, cafeicultores, exportadores, corretores, toda a gente ligada ao café estava rica da noite para o dia.

Londrina, terceiro aeroporto em movimento no País. Para alguns veteranos, o ano de 51, é o momento alto da euforia. Táxis aéreos particulares, além das linhas regulares da VARIG, REAL, AEROVIAS e VASP fazem a média de 40 a 50 voos diários, despejando ou levando gente que entra e sai, principalmente de Foz do Iguaçu, Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Goiás e Belo Horizonte. Nesse ano, a famosa Buate Diana fretava um avião de linha comercial trazendo vinte mulheres a Londrina. A dona da buate, Selma, anunciara pelas rádios, pelos altos falantes da cidade e até com fotos em biquíni, a nova safra que estava para chegar: BUATE DIANA – NOVOS SHOWS – GRANDES ATRAÇÕES. O principal bar da cidade o Líder da Rua Rio de Janeiro, expunha fotos de jovens mulheres lindas e gritava reclames. Cafeicultores, fazendeiros, madeireiros, coronéis, picaretas foram ao aeroporto assistir a chegada das chinas, como a linguagem da época as chamava. E, ali, mesmo, cada um já escolheu a sua mulher, com quem se avistaria à noite. A safra de mulheres era chamada lote e os compradores as escolhiam previamente, como gado. Mas gado de raça, diga – se.
Possível, ainda hoje, extrair vivo da memória dos antigos, o clima de paroxismo daqueles anos de glória, alegria e loucura. Uma crise de muito dinheiro explodindo entre 1949 e 1953, flagrando, envolvendo, desnorteando todos. Despreparados, fascinados, ricaços da noite para o dia, os poderosos de Londrina e os poderosos vindo de fora, fizeram nascer um movimento esdrúxulo e glorioso e, conforme alguns testemunhos, a maior de todas as aventuras boêmias e alegres já vividas por uma cidade brasileira.
Um fazendeiro freta um avião da VARIG, de Londrina para Porto Alegre levando um amigo e uma mulher e ali ficam, à larga, gastando e vivendo. Por dez dias. Diana, Laura, Esperança, Dagmar, Cidica são as casas alegres mais ricas e famosas dentro e principalmente fora de Londrina. Mas o meretrício é muito mais. Falava – se, em termos estatísticos, que havia entre zona, casas e chácaras, cinco mil mulheres em exercício. Nas grandes casas, rodízio permanente, que os consumidores querem novidade. Pagam e pagam alto – se chove, o fazendeiro vai ficando na casa e está disposto a tudo enquanto chover e quiser fica. Sustenta o fogo aceso de trinta mulheres bebendo. Bêbado, é roubado na conta. Gasta vinte mil cruzeiros, paga trinta ou mais. E paga. As grandes casas não servem cerveja, é bebida barata. Só trabalham com scotch autêntico (Cavalo Branco ou John Haigs), vinho Adriano Ramos Pinto, legítimo português ou champanhe francesa. Os garçãos, vestidos a rigor, trabalham com pratarias, cristais e servem em pires de metal, quando a pedida é individual.
Noutras cidades do Norte do Paraná, o café fazia enriquecer. Todo o Norte cresceu. No Estado de São Paulo, as cidades de Presidente Prudente, Marília, Ourinhos, Bauru conheciam o auge. Mas Londrina era o centro boêmio dessa euforia que chegou a nacional – o café – e abriu suas asas para os vícios e as graças da vida alegre. Montou as casas mais ricas de prostituição do país, conluiou picaretas, otários, golpistas, papeleiros, cáftens, marafonas caras e finas, hábeis malandros de jogo carteado do pif – paf à caixeta, do bacará à roleta, músicos, cantores famosos e nomes internacionais em moda, orquestras estrangeiras, suntuosos automóveis importados, manteve clubes de jogos às dezenas, trouxe e renovou em aviões fretados as mais finas safras de mulheres da noite, enquanto suas ruas continuavam sem pavimentação e a cidade tinha problemas de saúde, saneamento, educação e transportes.
A cidade estava dividida em duas, a de baixo e a de cima, a que fica antes e a que fica depois dos trilhos dos trens, a zona e a família, a devassa e a bem comportada. O café, só se plantava café, cerca a cidade dividida em duas. A duzentos metros de onde é hoje o número 540 da Rua Mato Grosso já havia cafezal intenso. Havendo sol, Londrina impregna seu pó vermelho, roxo, terra de siena; havendo chuva, as ruas da cidade viram lama que só as charretes conseguem atravessar. Quando chove, abaixo dos trilhos, na zona é possível viver o tempo que se queria. Há restaurantes, bares, vida correndo, cabeleireiro, tudo. O grande restaurante esta lá. O Tuninho. Já naqueles anos de ouro oferecia a melhor comida de Londrina.
 
É algo como não há outro no Brasil. Importa os maiores profissionais da malandragem até estrangeiros, cria grandes otários, na época chamados marrecos, trouxas, coronéis quando farristas, divertidos e endinheirados, anima rufiões e faz virem de fora os gigolôs com suas mulheres, ou virem sós e aqui se argolarem. De colt 38, cabo de madrepérola na cintura, os coronéis adentram as casas e dançam o shot animado pela sanfona e bateria. Ou se dança o tango.
Na pedra da Rua Rio de Janeiro, lado esquerdo de quem desce para a estação ferroviária, a picaretagem corre firme, vem queimando, envolve terra, letras falsas, começam a surgir os primeiros cheques sem fundo, terras frias são vendidas, cartórios venais e mancomunados com os picaretas vão escriturando duas, três vezes a mesma propriedade. Os problemas policiais crescem rapidamente, há desordens, conflitos e tiroteios na zona.
Rápidos, ariscos e impunes, os vigaristas, chamados corretores, funcionam elétricos, desenvolvendo tombos, estouros, segundas, datas (lotes de terra) que jamais existiram. Levantam o dinheiro fácil, fácil, ganhando do jacu (o comprador de terras, pacato, crédulo, ignorante, vítima frágil) e vão gastar lá em baixo, à noite, nos bordéis. Nasce a expressão “ir para baixo”, ir para o brega (lupanar).
Nas ruas, uma lama só, quando chove. E pó vermelho, se faz sol. Mas a ostentação e as viagens dominam. O carro estrangeiro, enorme, de preço, chega a Londrina – o Nadch e principalmente o grandalhão Cadilaque rabo de peixe. Os fazendeiros e enricados preferem o bem preto, banda branca, exuberante, suntuoso, embora o pó avermelhado suje tudo, se intrometa e fique impregnado em tudo: pessoas, animais e coisas.
Até no dinheiro, até entre as unhas que o desfolham e contam, a marca roxa da terra. É, já se sabe, coisa do Norte do Paraná. Tempo de dinheiro bravo. Hoje, o dono de uma churrascaria da Rua Mato Grosso confessa não saber mais o que faça e nem a quem recorrer. Está recebendo uma média diária de quatro cheques sem fundo. E de pessoas amigas. De 1948 a 51 os cheques praticamente não circulavam em Londrina. Era dinheiro vivo. Os sabidos da região inventam expedientes e depenam seus otários. A picaretagem reunida em vários cantos da cidade, parece ter recebido uma ordem geral de comando: vamos malhar os irmãos, falsos aplicar uma segunda, vamos vender ações do Banco Continental, vamos dar falsos espetáculos de luta livre, judô, karatê e luta romana. Assim, Londrina chega a apresentar até touradas para otário deslumbrado ver. E uma cervejaria que aparece com objetivo de dar um golpe, acaba dando certo e tem, querendo ou não, de levar o negócio para frente no roldão dos lucros.
A dona da buate Diana, em carro aberto ou fechado, desfila pelas ruas de Londrina mostrando a sua mercadoria, o novo lote de meninas que acabam de chegar, via aérea, pelo chamado “balaio”, falando dentro e fora do Norte do Paraná. Chegadas, as mulheres dançam, pintam e bordam, rolando e ganhando o dinheiro. E o jogo de azar corre intenso, dia e noite pela fresta de um expediente engendrado pelos malandros. Alugam – se no centro de Londrina edifícios que funcionam como sub sedes dos clubes. São aluguéis caros, alguns vão a 100 mil réis mensais. Para que se tenha referência do dinheiro que rola em jogo na cidade – em 1951 há 15 clubes. E os melhores são frequentados também por mulheres que acompanham seus homens, marrecos ou rufiões. Malandros atilados e finos de jogo chegam de todo o Brasil, Uruguai, Chile e Argentina. O grande jogo é o pif – paf, mas há o bacará, a caixeta e outras modalidades, que as autoridades com o tempo e com as confusões, brigas, fugas e prisões decorrentes, mandam parar. A roleta também vem a Londrina, ficando pouco mais de uma semana. As autoridades mandam parar.
Mulheres bonitas chegando, as grandes paixões passam a comuns. Noivos desmancham compromissos, fogem levando a concubina consigo. Maridos desnorteiam – se, rapazes bonitos viram gigolôs, amores inesperados explodem, gloriosos e malditos. Há tiroteios na disputa de uma mulher, há tentativas de suicídio para trazer um gigolô à cama.
Amar, beber e jogar. Esse, o trinômio que Londrina não conhecia antes da explosão do café. Que faltava à cidade pacata, enlameada ou poeirenta, que não estendia outro divertimento além da caça, pesca, alguma briga de galo, alguma penca (corrida de cavalos disputada em pista reta). Assim, o brega, o bordel ao lado da jogatina era o grande divertimento único da cidade. E mais que isso. Muito mais. Era um ambiente de amor espúrio e camaradagem entre boêmios alegres e endinheirados, com jogos e arrumações. Naquelas libações do brega, reunia -se o alto mundo do café no Brasil, firmando grandes negócios de compra, venda, troca, exportação. Todo grande negociante de café é, em geral, grande boêmio, maneja dinheiro grande e viaja imensamente.
Chacoalharam um pé de prostitutas no Rio de Janeiro e até as que estavam verdes caíram aqui.
A frase, de exagerada, não tinha nada. Uma vez por volta de 51, um homem poderoso, político e fazendeiro, vai ao Rio de Janeiro resolver negócios de exportação e almoçar com autoridades e um ministro. Comem no Le Bec Fin, a mais fina cozinha francesa de Copacabana na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ali pela altura do Lido. Almoço findo uma das autoridades da roda, propõe amenizarem o encontro visitando na Avenida Atlântica, uma requintada casa de mulheres, luxuosa e discreta. Lá terminadas as apresentações formais, a dona da casa bate as palmes clássicas.
Meninas!
Surge no salão, a safra mais fina, o que há de melhor e mais jovem, a nata das profissionais da Zona Sul do Rio de Janeiro. No entanto, estão nervosas, constrangias, perdendo o lindo rebolado, enquanto o homem poderoso de Londrina, convidado por um ministro e autoridades que estavam certos de que lhe reservavam um presente, uma surpresa, olhava com tranquilidade. Uma delas, dissimuladamente, se aproxima e lhe diz, quase ao ouvido:
Doutor, por favor. Não diga a ninguém aqui no Rio que o senhor já nos conhece.
O homem rico do café já conhecia todas aquelas mulheres de sua vida boêmia nas casas da noite de Londrina.
A Companhia de Terras do Norte do Paraná mantém vivo interesse em divulgar suas terras, ou usos e cultura da região aproveitando a ascensão do momento inflacionário e o salto dos preços do café. Afora tudo isso, as terras são privilegiadas, dando de tudo, terras roxas do Norte do Paraná. Assim, uma imobiliária local, a Ipiranga, chega ao ponto de montar um escritório de representação de vendas de terras em Paris.
Londrina é comentário. Um carro de chapa londrinense transitando por São Paulo ou pelo Rio de Janeiro, por exemplo, levanta observações exclamativas e olhos compridos na dinheirama do dono. Uma massa de população flutuante de todos os Estados do Brasil e até do estrangeiro parte ou chega à cidade. Que é um chamamento, é alegre, convida, apesar do pó vermelho ou da lama vermelha. As novidades fervem. Roupas, carros, mulheres, aparelhos elétricos, modernos confortos – Londrina adota de pronto. É a primeira cidade do Interior brasileiro a estar na moda, depois do Rio, que imita apenas Paris, Roma e Londres. Tem bons hotéis, o Franz Hotel, depois o São Jorge, o Grande Hotel, o Tóquio Palace Hotel. Alguns cinemas – o Cine Londrina, o Cine Municipal e o Ouro Verde. Teatro nenhum, biblioteca nenhuma. Comum, não haver uma vaga em nenhum dos hotéis da cidade. Então, as tripulações dos aviões em trânsito hospedam – se, naturalmente, nas casas de mulheres, na Diana, na Cidica. E tudo bem
Gente que tem posição de café (nunca se pode dizer que quem possua menos de 5 mil pés tenha posição) fica mais rica do que qualquer previsão. Nomes como Vitorelli (Londrina), Codato (Cambé), Mazi (Rolândia), Manoel Lage (Arapongas) e Coleto em Rolândia e todo o Norte do Paraná tornam -se, da noite para o dia, discutidos, invejados e citados nas altas rodas de negócio do País. (Coleto, mais tarde, aplica um estouro na praça do Norte do Paraná, que ganha dimensões de escândalo público, indo de 15 a 20 milhões de cruzeiros atuais e, por pouco, chegaria ao tamanho de um escândalo como o da Manesmann, ainda de fresca memória).
Eu estou duro.
Não se ouvia esta frase em Londrina. Todos ganhavam dinheiro: saqueiros (carregadores de sacaria), peões garçãos moleques entregadores de recado, serviçais humildes, todos ganhavam dinheiro na terra. Havia um garapeiro, da Rua Curitiba, que além de servir garapa, era agiota. E como não existe agiota perdulário, hoje o cidadão possui três apartamentos de aluguel só no centro da cidade.
O mexicano Pedro Vargas, cantor de boleros. A orquestra de Francisco Canaro, Sílvio Caldas, Dircinha Batista, Isaura Garcia, Grande Otelo, Carlos Ramirez, Cauby Peixoto foi crooner da Buate Colonial. Luz del Fuego e Elvira Pagã. As grandes orquestras Caló e Darienzo. Londrina atrai e agasalha o de melhor, debaixo de convite alto. É a época do tango, do shot, do baião e o bolero está apenas começando a pintar nas madrugadas. Londrina, além de, seus grandes bailes e shows (Evandro Costa Lima a visitou como bailarino), importa o melhor e mais caro, paga alto, desde que seja a última moda.
Enquanto isso, na madrugada da Rua Rio de Janeiro, no Bar Líder, ponto de boêmios, afortunados, jogadores e jovens, corre o jogo da vida, nas mesas de bilhares. A dinheiro alto, claro.
Pontifica nas casas de mulheres, o Marquês do Bom Michê, figuraço incorrigível, protetor dadivoso de marafonas, otário oferecido e que, enciumado, ataca todas as façanhas dos jovens gigolôs, fortes, bonitos, viris. E há aquele bacharel em direito que mesmo roubado ostensivamente não diz palavrão, não perde a classe e a dignidade. Repudiado pela bonita mulher que o troca por um rufião, o mais que faz é dizer uma frase solene:
Olhem só que vulgar estelionatária do amor!
Laura, hoje dona de um dos maiores prostíbulos do Brasil, o La Licorne, em São Paulo, é vista assim pela memória dos que a conheceram em sua passagem por Londrina, onde fez dinheiro como dona de uma casa – trazia mulheres de fora, principalmente de São Paulo e explorava violentamente as infelizes. Dava – lhes o chamado banho de loja, vestindo – as com roupas caras, vistosas, insinuantes, onde o tomara – que – caia era o requinte da moda noturna. Depois, cobrava – lhes os olhos da cara, as espezinhava, taxava – lhes juros impagáveis. Suas vítimas só encontravam uma maneira de se alforriar daquele tipo de escravidão – fugindo, de pinote, espiantando – se nas últimas horas da madrugada e deixando roupas (duonas) e sapatos (pisantes). À cafetina odiada por todos, até pelos policiais, é atribuída a chegada dos tóxicos a cidade em 1960 – pervitin, dexamil, maconha, droga. Presa várias vezes em Londrina, seu dinheiro conseguiu corromper policiais e lei.
Era a mulher mais falsa sobre a terra.
Esta frase se acrescentou a outras de calão menos comportado ou publicável. Metia, dizem tóxico nas bebidas , viciava suas vítimas, trouxe para a cidade toxicômanos famosos, até mesmo cantores e principalmente menores e meninas fugidas de casa. Não era mulher bonita, nem era mulher tratada, não se trajava com apuro, capricho ou categoria. Trazia os cabelos longos escorridos e lambidos, conforme os que a viram na época. Destacava do geral das donas de casas de mulheres. Fria, negocista, calculista, medidora, plantava – se atenta e sovina atrás da caixa de seu bordel, verificando tudo, olhos de águia e atacando sempre o primeiro otário ofertado que cruzasse a sua porta. Rápida, é a primeira a atacar. Despreza os policiais, não faz deferências e cumprimentos especiais às autoridades. É odiada, portanto. Já Diana, sua concorrente, estende todas as honrarias da casa às autoridades que a visitam, manda servir uísque e chama para a roda oficial as mulheres mais finas. Vai á delegacia convidar para uma bebida em seu bordel. E nas festas juninas, faz questão de dar festa à luz da fogueira no dia de São João, onde se come pinhão, batata doce assada e se bebe quentão em ambiente familiar. Nem todos, no entanto, ganham da vida o que merecem e, segundo aqueles antigos dos tempos de ouro do café, a tal Diana perdeu – se de amores por um cantor toxicômano, importador de mulheres, atravessador de drogas, Roberto Luna, que para sustentar o vício caro, a caftinava alto e implacável, tomando – lhe até os últimos. Dizem as bocas antigas.
O ano de 51 presencia a entrada de fazendeiros intelectualizados (bacharéis em direito) nos bordéis. Assim o brega cresce de padrão, abre alas e dá entrada gloriosa aos fazendeiros que chegam montados em cadilaques pretos de banda branca. Tudo é lama ou pó vermelho em Londrina. Tem início o calçamento das ruas, há uma profusão de charretes funcionando como táxis, é a época dos fordes e jipes 48 e 51, de aluguel, principalmente usados pelos picaretas que levam os jacus para ver as terras que comprarão. E que outros igualmente desavisados, já compraram antes.
Selma, loira e dona de bordel, querida, polaca, hoje estabelecida em São Paulo com a Buate Versalles, foi a mulher que colocou na zona a primeira grande casa a Diana, da Rua Vila Velha, atrás do estádio de futebol. Também abriu o grande bordel Nova Diana, dentro de um cafezal com piscina moderníssima, dois pavimentos, três quartos sofisticados, ostensivamente luxuosos, além do quarto de três paredes e teto de espelhos. Atual dona de uma das grandes casas da noite de São Paulo, começou na Vila Velha. Casou – se com Sebastião Alves Aguiar, hoje agraciado com o título de comendador, Selma tem um filho, Alberto, que gerencia a Buate Nova Diana, em pleno cafezal.
Os Cadilaques de Londrina, caros, ostensivos, bebedores de gasolina viram notícia e fornecem reportagens para os jornais e as revistas paulistas e cariocas. Aparecem primeiro pelas mãos dos corretores, dos picaretas, dos papeleiros, dos grandes vigaristas. Depois, os fazendeiros os adotam e neles escapam para as beiradas dos rios Tibagi ou Cambezinho, onde fazem churrascos ou tomam banhos com as mulheres.
Cáftens desembarcam em Londrina portanto suas minas, mulheres chilenas, paraguaias, bolivianas, mexicanas, argentinas e até francesas. Os cantores famosos chegam para cantar de dia nas rádios locais e à noite nos bailes ou nas três grandes buates, onde a Colonial é o ponto alto, na Rua Maranhão. Harpas paraguaias, Miltinho, Pedro Vargas, Roberto Luna. A cidade importa variedades e da opções, oferece grandes restaurantes, ainda mais na zona boêmia. Depois das quatro da manhã, fechadas as buates, há o Tuninho, abaixo dos trilhos dos trens e há o Bar Líder, na Rua Rio de Janeiro, olho aceso na noite e ponto de boêmios da parte de cima da cidade. São ceias se esticando até o nascimento do sol.
Preconceito e feroz. As prostitutas têm hora determinada para transitar pela cidade. Devem viver isoladas, confinadas, na zona. A linha dos trens é um limite, linha divisória, não subissem para a área familiar. As prostitutas não têm essas liberdades e corre um tempo em que não se pode dizer que tudo o que é moda não incomoda. Hoje, mulher comum e prostitutas se vestem com semelhanças. Naquele tempo, segundo os antigos – foram eles que fizeram aquele tempo – a mulher – família se vestia com recato, grave prudência, saias lá em baixo, pernas escondidas. Hoje mostram tudo o que têm. E até o que não têm. Observam os antigos.
Restaurante Calone, 1951. Na Avenida Paraná, entre o Cine Ouro Verde e o edifício Autolon, as prostitutas entram, roupas avançadas, decotadas, ousadia das indecências. Pedem, as três, sorvete. O dono do bar, dissimulado, sem que as mulheres percebam joga sal no sorvete antes de servir. E cobra três vezes mais caro para que elas não voltem nunca mais. Á noite, talvez o mesmo homem procure no bordel uma daquelas três mulheres para comprar amor. E não aceitará o produto se o servirem frio.
Havia Soilo, cabaretista, cantor, que declamava na noite. Havia tentativas de suicídio e de morte no hotel por causa de um gigolô, por causa de um coronel. Os homens se impunham como machos, brigavam, armados de colt 38. Os mais velhos eram habitues, os mais moços sem dinheiro mas na força da idade, gigoletavam. E havia os deboches divertidos dos alegres rufiões. Os corretores vinham e iam e ficavam homiziados nas casas de mulheres, semanas a fio, varadas com música, bebida estrangeira e mulher muito bonita.. Londrina, atraia gente de fora, a ponto de importações e figuraços das mais diversas atividades descerem em seu aeroporto e ficarem semanas, quinzenas. Esbanjamento de fortunas no jogo, e na prostituição não têm conta. Mais no jogo claro. Importante, nesse espetáculo todo, para alguns, é que em tudo isso havia tranquilidade e a vida era festiva nos bordéis. Mas há a história incrível do pistonista Booker Pittman, pai de Eliana Pittman, que viveu em Londrina cinco anos, tocando de casa em casa e morrendo de beber.
Em temporada eleitoral, um candidato a senador pela oposição foi flagrado na madrugada no quarto de mulheres nas grandes casas. O homem de Londrina, perdulário desbragado, exige novidade e paga alto. E no intercâmbio boêmio dessas cidades, há diálogos onde a palavra de ouro é Londrina:
Eu vou em Junho ou Julho.
Mulheres que tinham noção de safra e de quando o dinheiro ia correr. E a zona quase elegeu um vereador. Ângelo Daniel, candidato do Partido Social Trabalhista, garção da antiga Diana, hoje ainda como garção do Versalles, em São Paulo, praticamente já estava eleito naquele começo da década de 50, quando alguns cidadãos bem comportados ou temerosos da terra lembraram – se de botar um freio na situação. Afinal eleger – se vereador um garção de bordel, poderia ir de encontro ao bom nome da cidade, já falada pela sua devassidão e excessos. Naturalmente debaixo do peso de dinheiro, Ângelo Daniel, retirou sua candidatura.
Era só café. O resto da produção agrícola era ralo, para o gasto – verduras, hortaliças, ovos, leite. O gado de leite vinha à cidade, era puxado pelas ruas lamacentas ou poentas. E os vendedores, gente rude, gritavam:
Leite, leite!
No portão das casas a patroa atendia. As crianças pediam:
Mamãe, me compra um caneco?
Então, o leite era tirado na hora, vendido ainda quente do úbere.
As ruas eram povoadas de verdureiros, frutas e legumes baratos e fresquinhos, sem plantios e crescimentos artificiais, sem a técnica japonesa. A cidade não tinha nem 20 por cento dos japoneses de agora. Comia – se melhor, tudo era sadio. Não havia carne congelada, nem supermercados, cozinhava – se a lenha e a carvão. O elevador não havia chegado ainda, as casas eram baixas, no máximo dois pavimentos. Um edifício de três andares era raro, tudo era escadaria.
Na zona, os homens dançam o shot com revolveres na cintura e as mulheres no rodopio, derrubam de propósito as garrafas de champanhe francesa para o otário pagar. A champanhe importada custa de 500 réis e um mil réis. Muitos homens andam montados, éguas bonitas, vindas do mato e da fazenda para a cidade e, ao apear, amarram os cavalos em estacas de pau. A cavalo também vão à zona de bolsos cheios, com dignidade e arrogância. Com um homem daqueles não se mexia sem receber troco na hora.
O homem se vestia melhor, pelo testemunho dos antigos. Bota marrom de cano curto, calças de linho marrom e blusão marrom. Tudo marrom. Pó vermelho. Lenço no pescoço para evitar o pó.
Capitão Eusébio, fazendeiro e político (PSD), figurão das noites boêmias, dançava shot, era alegre, bom, amigo da farra e das mulheres, boêmio extremado, vivedor. Teodoro Vitorelli era o boêmio sem remissão. A boemia era esparramada, numa e outra casa, não havia as rodas, as concentrações. Todos se conheciam, mas cada qual na sua vida. Capitão Luis, chamado Capitão Mamão, prefeito de Apucarana depois deputado, gordo de 150 quilos, boêmio e homem direito. Capitão Fernando Flores, gaúcho macho, dos que não mostram os dentes sem motivo, garantia o serviço policial. Jogava – se bilhar francês, mandavam – se os filhos estudar em Ponta Grossa, Curitiba, Bauru, Ribeirão Preto, Sorocaba, Campinas cidades mais estabilizadas. Capitão Pimpão, finalmente. Limpou a cidade dos ladrões e dos picaretas que, quando os pilhava, os fazia beber óleo de rícino, óleo de caminhão, dava – lhes um purgante. Havia sido interventor na Prefeitura e tratou de obras de terraplanagem da cidade. Depois, candidata – se a prefeito e oferece uma churrascada memorável, feita no campo de futebol. Mataram – se muito bois, o povo desceu em caminhões e comeu todo o churrasco. Mas não votou no Capitão Pimpão para prefeito. E ele que havia feito tanto por Londrina. Povo falso, dizem.

E dizem que noventa por cento dos que iam à zona eram homens maduros. Os jovenzinhos pouco iam lá, temendo encontrar seus pais e levarem uma esparrela. Hoje, não; vão pai, filho e avó. Juntos e debochados. Perdeu – se o respeito, observam.
Não se ficava de imediato, com a mulher escolhida no bordel. Havia uma técnica de romance, namorava – se, ia – se à casa duas ou três vezes, presenteava – se, mimava – se. Só depois o ato. Também as profissionais não fixavam preço, taxativo, inflexível, frio, duro, antipático. Mas isto gerava um pagamento inesperado e, de comum, decuplicado, que poderia jorrar a qualquer momento. O lucro era certo e grande no fim. Depois os homens do café e os corretores viajavam muito. Nos re encontros, prostituta e cliente retomavam afeições e amores que pareciam cada vez mais firmes, como coisa de amante – fúria, dependência, paixão.
Havia coronéis escalados para serem os padrinhos dos filhos das mulheres – pareciam não ter outra função no cenário. E a vida dos gigolôs tinha passagens que faziam um capítulo. Os viajantes, nos jantares depois das quatro da manhã, passavam tempo sem fim desfiando o anedotário novo.
O Operário (Sociedade Operária) era o Carnaval popular, com ordem e alegria, nas Ruas Mato Grosso e Vila Velha. O principal traço era a sua democratização, nele entrava de tudo, rico, pobre e médio. Alugavam – se também grandes armazéns de café que estivessem vazios, salões que tinham 50 metros por 30 e o povo misturado, se divertia no Carnaval. Agora, conforme os antigos, Londrina é o que é, não se encontra um divertimento sadio na cidade. Os clubes são fechados. Morreu o Operário, a diversão popular, barata e de todos. Agora, os armazéns de café ficam vazios no Carnaval, naquele tempo eram alugados. Taxas, impostos, burocracia, imposto sobre imposto, matou – se o Carnaval do Operário. A prefeitura e os homens do governo deveriam ver isso, analisar, facilitar as coisas. Assim, o povo não se diverte.
Se chovia, lá em baixo se passava uma semana entre as mulheres e a bebida e a comida. Numa dessas estiradas, um gigolô debochado, acompanhado de mais de uma dezena de mulheres bêbadas e quase nuas, apoderou – se de um caminhão numa Sexta-feira da Paixão e desandaram todos a rezar, acompanhando uma procissão que passava. Foram excomungados pelo padre furioso.
Apareceu na cidade um circo e um gigolô engenhoso, arrastou, afoito asas sobre a proprietária, mulher mais velha que ele. Perdulário, dado à bebida estrangeira, gastou o dinheiro da amante e só lhes restou um leão como último patrimônio. Haviam bebido tudo. Mas o rufião queria prosseguir e acalmou a amante, apavorada, a um passe da miséria:
Calma. O dinheiro acabou. Agora vamos beber o leão.
Necessitando de dinheiro, às nove e meia da noite, um gigolô matutava:
A esta hora da noite, diabo, onde haverá um otário disponível?
Lembrou – se que era a hora dos padeiros. Procurou um e vendeu – lhe uma data (lote de terra) inexistente, abrindo – lhe uma carta extravagante de loteamento, em que o jacu estaria comprando um terreno vizinho as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo e à Andreson Clayton. O marreco, vibra antevendo o lucro certo. O gigolô apanha o dinheiro do sinal e vai para o brega.
Histórias de gigoletagem não acabam, multiplicam – se, proliferam. Houve estranhos acordos e conluios neste triunvirato velhaco coronel – mulher – gigolô. Mulherengos empedernidos montaram casas e viveram nelas com três mulheres ao mesmo tempo. Uma dia, aqueles três foram ao Cine Ouro Verde e, juntas, desentenderam – se, aprontaram um escarcéu e foram presas. Na delegacia, todas se diziam mulher do mesmo homem, um poderoso da cidade. Então, o delegado telefonou ao ricaço, pedindo orientação, explicando, querendo saber o que fazer. Do lado de lá do fio, a resposta veio rente:
Bote, todas na cadeia que eu quero ver se me livro um pouco delas.
Gigolôs, picaretas e papeleiros funcionavam se entrelaçando. Um dia, um desses, arrumou amante bonita que passou, dali em diante, a ser cortejada, com insistência, por um endinheirado da cidade. O ricaço insistia, o gigolô advertia amistosamente. A mulher reclamava dos pedidos insistentes do outro. Então disse o malandro:
Você diga que vou viajar. Receba o marreco. Quando estiver nu e entusiasmado, embole toda a roupa dele e jogue pela janela.
Foi dito e foi feito. Então, o gigolô pegou as roupas do prevaricador e foi entregá – las à sua esposa, não se esquecendo de a alertar para local onde se encontrava o marido.
Um monumento de mulher, uma graça rara pinta, pela primeira vez na cidade. Um gigolô atento, desfecha a conquista para aquela noite mesmo, num encontro nas últimas horas da madrugada. E sai para a zona, a se divertir, prelibando a conquista. Hora marcada, volta ao bordel. E estarrece. Na mesa sentado e bebendo com aquela mulher, está um poderoso coronel do café que, com uma nota de cinco mil réis enrolada e em chamas, acende o cigarro estrangeiro.
Essa, a Londrina louca e gloriosa, devassa e amante, alegre e boêmia, velhaca, frívola e transitória, que os anos de cinquenta viram nascer e brilhar de repente, passando como uma chispa. Em 53 viria a primeira queima do café, a geada, a queda violenta de vendas e de preços.
A loucura acabou, as luzes foram desmaiando, as casas sendo deixadas pelos grandes nomes importados, a festa quase parou e a cidade foi voltando ao seu lugar.
Quem viveu os anos de ouro, viveu. Quem não viveu, não olhe para atrás. Londrina é outra.

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JOÃO ANTôNIO (1937-1996) foi escritor e jornalista. Autor, entre outros livros, de “Malagueta, Peru e Bacanaço (1963) e Casa do Loucos (1976).
KAMBÉ, artista visual paranaense.
O texto foi publicado na edição nº1 da revista Helena, da Biblioteca Estadual do Paraná.

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