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Os efeitos devastadores da dengue

Saneamento básico, educação sanitária e eliminação de lixo clandestino são fundamentais para evitar o avanço da doença, de acordo com a bióloga e professora doutora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Luciana Ribeiro, nesta entrevista ao portal H2FOZ.

Aedes aegypti, o mosquito da dengue

Denise Paro ( Em 01/04/2020)

Somente neste ano, três pessoas morreram de dengue em Foz do Iguaçu. A doença tem um efeito devastador na cidade, onde 4.334 pessoas foram infectadas e há 19.287 notificações.

A batalha travada para combater a dengue é contínua e antiga, porém os resultados nem sempre são promissores pela falta de colaboração da população e até mesmo por iniciativas públicas que por vezes não atingem o propósito desejado.

Saneamento básico, educação sanitária e eliminação de lixo clandestino são fundamentais para evitar o avanço da doença, de acordo com a bióloga e professora doutora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Luciana Ribeiro. Nesta entrevista ao H2FOZ, Luciana fala de estratégias e alternativas para vencer a dengue, ressaltando o papel da população e do poder público.

H2FOZ: Além de retirar o lixo e não acumular água parada, o que as pessoas poderiam fazer em casa para evitar a proliferação do mosquito? Tais como o uso da borra de café nos vasos, manter no quintal algumas espécies de plantas, etc…

Luciana Ribeiro: As medidas domésticas são simples, mas precisam ser feitas com frequência. Podemos dividir em quatro tipos:

Lavagem: limpar com bucha e sabão (para remover os ovos) semanalmente os pratos de vasos de plantas e os bebedouros de animais domésticos; lavar a cada dois meses com bucha ou escova as paredes internas de caixas-d’água, poços, cacimbas, tambores de água ou tonéis, cisternas, jarras e filtros; sempre que for trocar o garrafão de água mineral, é preciso lavar bem o suporte no qual a água fica acumulada, fazendo o mesmo com a bandeja externa da geladeira.

Eliminação da fonte de acúmulo de água: mantendo garrafas vazias ou baldes virados para baixo; cobrindo caixas-d’água, poços ou piscinas e mantendo as calhas de água limpas; guardando pneus em locais cobertos, longe da chuva (com furos na parte de baixo); furando latinhas de alumínio antes do descarte para não juntar água; não deixando entulho no quintal, em terrenos baldios ou nas ruas (nem mesmo tampinhas de refrigerante ou copinhos plásticos); colocando terra, areia ou borra de café nos pratos dos vasos das plantas; mantendo a lata de lixo devidamente tampada; deixando a tampa do vaso sanitário sempre fechada e, no caso de banheiros pouco usados, dando descarga pelo menos uma vez por semana; colocando areia nos cacos de vidro no muro que possam acumular água; secando a água que possa acumular atrás da máquina de lavar roupa ou da máquina de lavar louça.

Bloqueio: colocar telas de proteção nas janelas com trama de 1mm e, se for o caso, mosquiteiros na cama para dormir.

Repelentes: os repelentes caseiros (de andiroba, cravo, citronela) precisam ser feitos com bom óleo fixador, senão evaporam muito rápido, perdendo a qualidade da repelência. É preciso reaplicar várias vezes ao dia, especialmente em pés, tornozelos, braços, orelhas, pescoço, que são as áreas mais visadas pelo mosquito. Uma forma complementar caseira e natural de aumentar a repelência a mosquitos é tomar diariamente vitaminas do complexo B (com orientação médica ou de nutricionista); própolis; água com limão e cúrcuma.

Imunidade: existe também uma fórmula homeopática desenvolvida pelo Instituto Hahnemaniano e há mais de dez anos sendo utilizada que previne dengue. Pode também ser usada de modo terapêutico, por pessoas já atingidas pela doença, desde que iniciem o tratamento até o segundo dia de dengue.

E quanto às medidas governamentais, o que é possível fazer?

Já as medidas públicas (governamentais) envolvem a cobertura completa do saneamento básico da cidade, incluindo a eliminação de campos de lixo clandestino; a educação sanitária; campanhas de esclarecimento público. Além disso, seria fundamental que o poder público cuidasse atentamente dos ecossistemas existentes no município e agisse para regenerar aqueles que se encontram danificados, diminuindo o impacto das mudanças climáticas, que também afetam o comportamento do mosquito. Finalmente, é fundamental o investimento em pesquisas de controle biológico.

Quais seriam os predadores do mosquito da dengue?

O mosquito Toxorhynchites theobaldi é uma espécie voraz, predadora do Aedes aegypti. Uma única larva do theobaldi pode comer mais de 30 larvas do Aedes em um só dia. O theobaldi vive em áreas úmidas, de mata atlântica. Sua presença pode atuar como controlador biológico do mosquito da dengue. Estudos indicam haver espécies de aves, répteis, peixes, pequenos e microcrustáceos, anfíbios (alguns girinos de sapos), centopeias, aranhas, insetos, escorpiões-d’água, planárias, notonectídeos, libélulas, baratas-d’água, besouros aquáticos, sanguessugas e hidras capazes de realizar o controle biológico do mosquito da dengue, ou seja, que são predadoras das larvas e pupas do mosquito.

Traduzindo: o bom estado dos ecossistemas aumenta o número de predadores do mosquito, enquanto o desmatamento, a extinção de nascentes e o uso de venenos fazem com que esses predadores naturais desapareçam, aumentando a população do mosquito.

A aplicação do veneno que a prefeitura usa torna o mosquito mais resistente?

Não apenas as prefeituras têm cometido o equívoco de apostar em inseticidas para diminuir a quantidade de mosquitos. O mesmo se passa com outros níveis governamentais e com a própria população.

O uso de inseticidas faz com que o mosquito se torne cada vez mais resistente (como ocorre com os antibióticos, que podem gerar superbactérias). Isso gera um círculo vicioso, em que cada vez se torna necessário utilizar um veneno ainda mais forte, provocando como reação gerações de mosquitos ainda mais resistentes. O problema é que os inseticidas não afetam exclusivamente o Aedes aegypti. Afetam vários outros organismos, desequilibrando o ambiente e, consequentemente, a vida humana.

O mesmo vale para os inseticidas usados pela população?

Geralmente a população utiliza inseticidas e outros biocidas de modo inadequado e indiscriminado, contribuindo para eliminar os predadores do mosquito da dengue e ao mesmo tempo causar resistência no Aedes e intoxicação em pessoas. Mesmo quando o inseticida é autorizado pela OMS, o cálculo de segurança para sua dosagem exige precisão e cuidado – nem sempre praticados pelos aplicadores de veneno. Além disso, são necessários muitos anos até que realmente um biocida tenha seus impactos compreendidos. Um produto considerado seguro até certo momento pode ser reconhecido como perigoso diante de novas informações, antes desconhecidas.

É interessante observar que as pessoas temem as ameaças biológicas (mosquitos, vírus, bactérias), mas não se dão conta de que para se defenderem dessas ameaças criam perigos bioquímicos, muito maiores e mais graves que a própria ameaça original. Falta aprender a conviver ecossistemicamente. Somos um elemento participante dos diversos ecossistemas. Interagimos com outros elementos (organismos, água, solo, ar…), afetando-os e sendo afetados por eles. Ignorar nosso papel, desconhecer as interações de que tomamos parte, só nos torna mais vulneráveis. Especialmente a nós mesmos.

Qual teria sido a origem do vírus da dengue?

A história da dengue indica que o vírus provavelmente migrou de primatas a humanos, quando as populações humanas começaram a “invadir” áreas de mata para construir suas moradias e a viajar comercialmente, levando o vírus consigo. Tal como o coronavírus e diversos outros, o desequilíbrio ecológico pode levar organismos a ocuparem novos habitats (que podem se tornar ameaçadores aos humanos em dado momento) e a um descontrole populacional pela falta de predadores, ocasionando problemas de saúde.

H2FOZ – Denise Paro
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