País da inclusão (ou cordel da ironia), um poema de Carol Miskalo

Um poema de Carol Miskalo

 

no país da inclusão
preconceito é coisa do passado
basta ligar a tevê
e saberá do que falo
dona branca diz sem pressa
“preconceito aqui não existe
no carnaval estamos juntos na avenida
não tem ninguém triste”

e se a pele é negra
a escravidão é marcada
é pobre, é boa, gentil
e dorme no quarto da empregada
se a pele é preta
é forte, alto, cheio de disposição
é maloqueiro, jardineiro, tantos eiros
que me falta adjetivação

ministro, juiz, deputado
polícia, mídia, aparelhos da burguesada
fazem limpeza étnica e social
embranquecendo a pátria amada
se a culpa é branca
“vamos mudar a cara do culpado
branco, rico não pode ser preso
preto, pobre já nasce condenado”

mas no país da inclusão
preconceito é coisa do passado
é só andar por aí
pra saber do que eu falo
dona branca diz
“ele é preto mas é educado
é bom, limpinho
só que é preto de cabelo pixaco”

no país da inclusão
o preconceito é velado
aceito, semi-oculto
muito propagado
no país da inclusão
a negritude só é bem vista
em 20 de novembro
e no carnaval se é sambista

nesse país que se esconde
atrás de uma cara pouco hostil
pobre morre a toda hora
na guerra civil
condenados, enganados
assassinados de maneira brutal
esse país sem preconceito
se chama brasil dos bons costumes e boa moral

Carol Miskalo é professora do ensino fundamental e poeta em São Paulo, SP. Poema publicado originalmente em 2014 no blog da autora “A voz é minha”

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