Palavras passageiras

  –  E se a poesia virasse uma epidemia, como seria?  – 

 Fotos e texto de Áurea Cunha – 
epidemia5bNa manhã da terça-feira, 3 de maio, um vento de outono  diferente soprou no TTU-Terminal de Transporte Urbano de Foz do Iguaçu. Foi a poesia que deu o ar da graça! Através de mais uma ação do “Epidemia de Poesia”, a moçada da Guatá deu as caras com um convite à leitura e à expressão. Foram mais de quatro horas, das 10 até as 15, de atividades relacionadas com livros, emoções, poemas e escritas.
Enfim, as palavras nesta vida passageira.
Uma exposição de poemas ­de diversos autores nacionais e internacionais foi montada no TTU; outro varal mostrava a atualidade da leitura do dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre a sociedade humana. E, num último conjunto, experiências locais de se falar e escrever poesia, colecionadas pela Associação Guatá nos três anos do Ponto de Cultura Tirando de Letra.
Uma banca de leitura, com duas mesas, acompanhava as exposições. A primeira, recheada com dezenas de modelos de folhetos literários e adesivos poéticos. Na outra, centenas de exemplares da revista Escrita e de livros de poesia, que foram distribuídos gratuitamente para quem transitou pelo Terminal naquele horário.

Embora seja um local de trânsito mais apressado, muitos dos transeuntes pararam para sorver os poemas. Este foi o caso do músico e produtor musical, Therciano Albuquerque, 46. Segundo ele, a poesia, no mínimo traz reflexão. Destacou a importância desse tipo de ação ao opinar que muitas pessoas podem não valorizar a poesia por falta de contato. “ São essas iniciativas que aproximam as pessoas da poesia. E, para gostar, basta conhecer.”
A estudante de turismo da Unioeste, Daiane dos Santos, 19, também passou por lá e deixou o seu recado. Disse que é uma iniciativa importante para se contrapor a uma sociedade mecanizada.  Para ela, a poesia fala da vida. “ Um projeto como este acaba encantando por ser diferente. A poesia resgata o ser”.
Interação com o público – Em mais de uma década de atividades ininterruptas em Foz do Iguaçu, a Guatá sempre carrega duas características em suas ações: a não espetacularização e a autonomia de um público que sempre é encarado como potencial produtor. Suas ações primam por serem simples, sempre revestidas de um algo comum ao público que pretende atingir. Este eixo de conduta faz com que a proposta cultural se contamine com o cenário e as pessoas presentes, sempre propondo o efeito inverso também.

Kariny (de azul): "O processo é mais difícil, porque primamos pela autonomia do público em experimentar escolher". (Fotos: Áurea Cunha)
Kariny (de azul): “O processo é mais difícil, porque primamos pela autonomia do público em experimentar escolher”. (Fotos: Áurea Cunha)

No caso da manhã de poesia,  além de escolher o Terminal de Transportes Urbanos para desenvolver a atividade, os agentes de leitura da Guatá cuidaram para que a interferência no espaço fosse o suficiente para ser notada, mas miníma o suficiente para que o ruído fosse absorvido pelo cotidiano do lugar.
“É sempre um caminho mais difícil,” – explica Kariny Wermouth, coordenadora do projeto – mas  o que buscamos não é simplesmente um evento e sim dessacralizar a ideia do prazer da leitura, dando acesso aos livros e, consequentemente, à experimentação do ato de ler. Em paralelo, estimulamos a busca pelo direito das camadas mais populares de terem sua expressão artística e verbal valorizada.”
Um poeta natural – Adnan Camargo, 19,  estudante do CEBEJA (instituição de ensino para adultos da rede pública),  tem alma  de poeta, e isso fica evidente já nos primeiros segundos de conversa. Modesto, como todo bom poeta, disse que ainda está sendo despertado pela linguagem poética.
Indagado sobre a importância da poesia, filosofa que ela é tão essencial “como a comida que a gente come”. Adnan conta que se sentiu inspirado com a exposição de poemas no terminal. “Isso me dá força para eu fazer o meu rap”.
Ao nos despedirmos ela me dá mais uma lição importante. Numa troca de impressões sobre a poesia, falei que ela acontece quando o coração transborda. Ele rapidamente respondeu que para o coração transbordar é preciso preenchê-lo. Se fosse um duelo de repentes, penso que seria um final glorioso para Adnan.
Seo Arizolino: "Minha leitura é pouca, mas minha alma de inventor me fez chegar perto" (Fotos: Áurea Cunha)
Seo Arizolino: “Minha leitura é pouca, mas minha alma de inventor me fez chegar perto” (Fotos: Áurea Cunha)

O Direito à Leitura – A pré-disposição de falar e equilibrar a conversa é interessante numa atividade que pretende habilitar uma primeira aproximação de muitos ao objeto livro e às palavras editadas. O “Epidemia de Poesia” faz de simples folhetos literários, verdadeiros cartões de apresentação para novas descobertas.
O seo Arizolino do Nascimento, 88, é morador do bairro Porto Belo. A princípio ficou meio “vexado” em se aproximar da banca de leitura, pois “pensou que não era de graça”. Mas comentou que se sentiu atraído pela exposição diferente, pendurada com simplicidade num varal de nylon, respondendo à sua imaginação. “Sendo inventor, não consigo parar de criar”.
Em situações como esta, a poesia vai ao encontro de quem ainda está indeciso. No caso do Arizolino, uma pequena demonstração da diversidade que cabia no varal e em cada exemplar da revista Escrita na banca, o fez leitor. Ele mesmo, que além do fato de não ter dinheiro, confessou sua timidez por ser “pouco letrado” e que só conseguia ler pequenas coisas com letras bem grandes.
Os amigos de Clara Luz festejam a surpresa de saber da autoria de seu pai poeta. (Áurea Cunha)
Os amigos de Clara Luz festejam a surpresa de saber da autoria de seu pai poeta. (Áurea Cunha)

Os autores dos poemas – A estudante Clara Luz também apareceu para conferir o material do Epidemia de Poesia, com seus colegas de escola. Ficou toda tímida quando os colegas descobriram que, na banca da Guatá, havia livros do pai dela, o poeta iguaçuense Carlos Luz. “ Clara, você não contou que tem um pai poeta?”, indagou um dos colegas.
Na verdade, o jornalista e poeta Carlos Luz é um entre as dezenas de nomes de iguaçuenses – de origens e histórias bem variadas – que aparecem no material reunido para a banca do projeto. Somam-se a eles poetas celebrados internacionalmente, que vão de Leminski a Neruda, de Cecília Meirelles à Alice Ruiz, em português, portunhol, espanhol e guarani.
Voltando ao misto de timidez e o orgulho da adolescente Clara, fica uma constatação. O que nos aproxima da experiência da poesia, é perceber que ela é fruto da necessidade de expressão de um outro ser humano, tão de carne, osso e emoções quanto aquele que a lê. Recorrendo ao próprio Carlos Luz, que em um de seus poemas afirma que num “Exercício de alquimia, tudo pode virar poesia”, dizemos que melhor ainda quando se conhece de perto frutos do alquimista.
O Terminal de ônibus receberá semanalmente as exposições e a banca do Epidemia de Poesia
O Terminal de ônibus receberá semanalmente as exposições e a banca do Epidemia de Poesia

Epidemia –  Aliás, a familiaridade com a leitura é o objetivo principal do “Epidemia de Poesia”. Projeto selecionado no edital de lançado no final de 2015 pelo Fundo Municipal de Cultura, ele estipula atividades semanais no Terminal de Transportes Urbanos durante todo o mês de maio, entre outros trabalhos. “A ideia é criar um vínculo e inevitável contágio pela exposição”, disse Anderson Schadorsin’, diretor da entidade.
“Acreditamos que nossa atividade no Terminal está somando com outra boa iniciativa em relação à leitura na cidade, que é o “Roda Livros”. diz Schardosin. O “Roda Livros”, citado por ele,  é um projeto idealizado pela Fundação Cultural de Foz do Iguaçu e que disponibiza livros gratuitos para os usuários do transporte coletivo. Já são 50 ônibus dotados de um acervo ambulante.
A contrapartida oferecida pela Associação Guatá ao apoio recebido do Fundo Municipal, foi a entrega de kits de leitura, contendo livros de poesia e revistas Escrita, incluindo versões em braille para o uso de deficientes visuais, em quatro instituições iguaçuenses.


Áurea Cunha é jornalista e fotógrafa em Foz do Iguaçu

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