Para lê-lo:

  –  Um fragmento de Walter Benjamin  –

 
“O livro estava em cima de uma mesa demasiado alta para mim. Eu tapava os ouvidos enquanto lia. Mas já tinha ouvido contar histórias assim em silêncio. Não as do meu pai, isso não. Mas às vezes, no inverno, quando estava à janela no quarto aquecido, o redemoinho de neve a cair lá fora me contava histórias em silêncio.
É verdade que nunca consegui perceber bem o que ele me contava, porque muita coisa nova se metia sem parar e em grande quantidade entre a matéria já conhecida.
Mal eu me tinha ligado mais intimamente a um grupo de flocos, percebia que ele tinha de me entregar a um outro que de repente o invadia.
Mas agora “tinha chegado o momento de seguir no redemoinho das letras as histórias que me tinham fugido à janela. As terras distantes que nelas encontrava envolviam-se, como os flocos, em jogos familiares umas com as outras.
E como a distância, quando neva, já não nos leva para longe, mas para dentro, Babilônia e Bagdá, Akko e Alasca, Tromsö e o Transvaal estavam todas dentro de mim.
O ar ameno dos calhamaços que a impregnava insinuava-se, com o seu sangue e o seu verniz, tão irresistivelmente no meu coração que este permanecia para sempre fiel a esses volumes usados.”
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Walter Benjamin, ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo alemão (1892-1940). Trecho de “Rua de mão única / Infância berlinense: 1900.”

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