Por menos academicismos, por mais encuentros

  –  Uma opinião de Manuella Sampaio. (Fotos: Manuella Sampaio e Shirley Tatiana Peña)  –  


Na mesa central dentro do amplo auditório, ornamentada com a bandeira dos povos andinos e com a bandeira de Cuba, iniciava na manhã do último dia 17 a quarta edição do Encuentro de Estudios Sociales desde América Latina y El Caribe, promovido pela Unila em parceria com a Universidad Nacional de Córdoba.
Na certeza de que podemos nós, a partir de nossas realidades, saberes e lutas populares, produzir e transmitir conhecimentos, o encuentro busca ser um espaço para compartilhar experiências. Construído horizontalmente por professores e estudantes, a quarta edição do evento debateu “las raices del pensamiento latino-americano: el legado de Ernesto “El Che” Guevara”. Não por acaso, ao centro estava seu retrato.
Entre os convidados e convidadas, marcaram presença as jornalistas cubanas Madeleine Zoe Sautié Rodriguez e Marta Rojas, escritora também conhecida como uma das mães da revolução cubana. Madeleine iniciou a primeira conferência falando sobre Che y el hombre nuevo, o socialismo cubano e a atualidade da revolução. Temas tão fundamentais em um contexto de desesperança para os povos latino-americanos e caribenhos. O tempo, por certo, foi curto frente a tantas coisas para dizer e também diante das curiosidades e inquietações de quem a escutava.

Marta Rojas, cronista de "La Moncada", e Fidel Castro. (Foto: arquivo pessoal Rojas)
Marta Rojas, cronista del “Moncada”, e Fidel Castro. (Foto: arquivo pessoal Rojas)

Por sua vez, Marta Rojas, “la cronista del moncada”, que foi  testemunha dos acontecimentos do assalto ao quartel Moncada em 26 de julho de 1953, um dos principais episódios a anteceder a revolução, fez relatos sobre suas vivências como jornalista e escritora. Marta conheceu pessoalmente a Che, viu a revolução nascer no auge de seus vinte e poucos anos e foi correspondente para a revista Bohemia e para o jornal Granma desde sua fundação. Ela era a história viva ali na nossa frente, com alegria e entusiasmo ao contar sua trajetória. Por isso, de certa forma, quando digo que lá estava “o retrato de Che” não me refiro apenas a foto em si, mas também à imagem plasmada nas narrativas daquelas mulheres, jornalistas, militantes, testemunhas de uma outra experiência de vida e sociedade, da qual Che teve papel fundamental na construção.
Durante os dois dias de evento, os cinco grupos temáticos de trabalhos apresentaram e discutiram pesquisas e reflexões de estudantes e professores de diversos lugares e instituições.  Pela tarde, acompanhamos em meio a perguntas e debates a sensível análise do jornalista e escritor argentino Mariano Saravia, a respeito da iconografia de Che. Na sequência, o fechamento das atividades foi com mate e música na charla “El Che y el mate”, onde o jornalista Pedro Jorge Solans projetou o documentário produzido parceria com a rede Tele Sur, seguida de muita dança com o chamamé engajado de Joselo Schuap.  Na sexta-feira, o jornalista Hugo Monteiro, um dos fundadores da revista argentina Sudestada, encerrou as conferências reforçando a importância de ver e entender Guevara para além dos lugares comuns. “Che não é uma estátua de bronze, não é o ídolo inalcançável, foi antes de tudo um homem sensível de carne e osso” finalizava Monteiro.
Depois destes intensos dois dias de trocas, reforço minha sensação de que a Unila, ainda que com deficiências e contradições, consegue ser um oásis no deserto de conservadorismo da grande maioria das universidades, indo na contramão das formalidades protocolares reproduzidas em tantos espaços pelos quais passamos ao longo da jornada acadêmica. Suspiro fundo e penso: como é bom sonhar junto! Em tempos tão obscuros como estes que vivemos, me parece urgente renovar as energias, a mística de nossas lutas e fortificar as redes que nos unem, a academia pode e deve cumprir este papel. O encuentro fez a sua parte ao trazer o espírito revolucionário de Che Guevara para o centro das rodas de conversa, e também ao descontruir qualquer tipo de hierarquia, promovendo a interação direta de alunos, professores e convidados, dividindo os espaços, as falas, compartilhando a mesma cuia de chimarrão.
Deixo minha gratidão a estas mentes, corações e mãos que fizeram esses momentos acontecerem. Fica o desejo de que num futuro próximo possamos levar esse encontro para fora dos muros institucionais, na tarefa necessária de fazer com que a universidade repense a si mesma, sua função social e seus academicismos, para que seja também um espaço de integração com a comunidade. Que siga a busca por derrubar os muros que nos separam e criar encuentros pela vida afora, onde seja possível pensarmos, sentirmos e sobretudo agirmos concretamente e coletivamente pelas mudanças que queremos.
Como disse o companheiro Mariano Saravia, quando se referia também a Unila: “não estamos só resistindo, estamos avançando!”. Lado a lado com nossos companheiros e companheiras seguimos em frente, remando firme,  mesmo que a maré insista em nos jogar para trás. E isso, em meio aos ataques, ao ódio e reacionarismo de nosso presente, é sim revolucionário.


Manuella Sampaio, jornalista, é estudante de História. Ela e Shirley Tatiana Peña são mestrandas  em “Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL)”, na Unila, em Foz do Iguaçu.
 

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