Por terra e liberdade

  –  Sepé Tiaraju, personagem da história da luta dos brasileiros  –

 

Em 2009, celebrando os 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, o Estado brasileiro, através de lei federal, passou a reconhecer o líder guarani como Herói do povo brasileiro.

 
[box] O SÍMBOLO SEPÉ – Nascido José Tiarajú, provavelmente em 1723, na redução de são Luiz Gonzaga, tornou-se Sepé Tiarajú. Era índio guarani, um dos primeiros povos habitar o Rio Grande do Sul, muito tempo antes de chegarem os primeiros europeus. Órfão ainda criança, foi atingido pela peste escarlatina, a mesma doenças que vitimou sues pais. Em decorrência da doença, Sepé obteve uma cicatriz na testa e um leve afundamento craniano em que, conforme sua posição, os raios solares promoviam certa luminosidade. Por esse fato, tornou-se Tiarajú, ou , “facho de luz”. Sepé Tiarajú era um grande guerreiro, forte e rápido, sempre destacando-se nos jogos indígenas. Foi escolhido Corregedor da Redução de São Miguel, em 1750, data da assinatura do Tratado de Madri. Ao lado do Corregedor da Redução de Santa Maria, Nicolau Ñenguiru, Sepé comandou a luta contra a expulsão e o saque de seu povo, durante a Guerra Guaranítica. Após sua morte, prosperaram muitas lendas entre os índios. Uma delas, diz que Sepé lutava com um ser sobrenatural quando foi atingido, pelas costas, por um dragão português. Três dias depois de sua morte, nas colinas de Caiboaté, foram massacrados mil e quinhentos índios, que se jogavam contra a artilharia inimiga, gritando o nome de Sepé. Poucos sobreviventes juravam te-lo visto entre a nuvem de pólvora, montado em seu cavalo, com uma lança de fogo nas mãos. Como personagem individual desta epopéica resistência, Sepé Tiarajú é o substrato da luta histórica contra a opressão e por um projeto de sociedade igualitária. A cada momento da história, o legado de Sepé e de seu povo renasce como advertência a intolerância e a injustiça. [/box]
 
 
No dia 07 de fevereiro de 1756, uma aliança entre espanhóis e portugueses, derrotaram um destacamento dos Guaranis, na zona missioneira de Macacaí, hoje estado do Rio Grande do Sul. O governador José Joaquim Viana, com um tiro de pistola, mata Sepé Tiaraju, símbolo da Guerra Guaranítica, em defesa da terra e contra e escravização dos Povos das Missões.
As reduções jesuíticas surgiram durante o século XVII, no território onde mais tarde, tornou-se estado brasileiro do Rio Grande do Sul, foram destruídas por bandeirantes, reconstruídas mais vez, e, atingiram, no ano de 1750, o ápice de sua organização. Reunidos nas terras que a Espanha reivindicava como a sua expansão nas americas, milhares de índios habitavam as aldeias formadas por padres jesuítas da Companhia de Jesus, que pretendiam “reconduzir” os aborígenes as fé cristã e a vivencias em sociedade, inspirada nos valores do homem branco. As reduções formaram trinta e três cidades missioneiras, cada uma com uma população entre sete e dez mil habitantes, divididas nos territórios do Brasil, Argentina e Paraguai, ao que se chamou de “República dos Guaranis”.
Diferentes pesquisadores compartilham a opinião de que os índios missioneiros viviam num regime cooperativo, cultivavam a terra plantando de erva-mate, milho, mandioca e algodão, criavam animais, produziam confecções em couro, utilizava-se da arquitetura e da metalurgia, dividindo o tempo de trabalho entre a produção individual e coletiva, o que garantia o sustendo de toda a comunidade. Vigorava entre eles, um sistema de troca de objetos e serviços, não havendo moeda. Já à época, desenvolveram um sistema de assistência designado “cotiguaçu”, que sustentava mulheres e crianças órfãs.
Em que pese Toto o processo de ocidentalização da população indígena e a consequente conquista dos territórios sul-americanos aos europeu, os Povos da Missões alcançaram elevada organização do processo do trabalho, na educação, nas artes e na cultura.
 
“Esta terra tem dono”
No ano de 1750, os reis de Espanha e Portugal assinaram o chamado Tratado de Madri, que conferia aos espanhóis a posse da Colônia de Sacramento, que até então constituía-se numa fortaleza de Portugal no estuário do Prata, estrategicamente instalada frontalmente à cidade de Buenos Aires. Em troca, o império lusitano tomaria a posse da região onde estavam instalados os Setes Povos das Missões.
Através desse acordo, quase cinqüenta mil índios guaranis destas cidades, deveriam passar para o outro lado do rio Uruguai, podendo seguir adiantes apenas com alguns pertences. Aos colonialistas e ao reinado das duas potencias da época, os guaranis deveriam deixar suas terras férteis, depois de longo período de preparo, suas valiosas lavouras de erva-mate e algodão, além de casa, igrejas e grande rebanho bovino.
Os padres, com raras exceções, acataram as ordens vindas de seus países de origens, restando aos povos das Missões, organizar a resistência, mesmo podendo contar apenas com meios rudimentares de luta e dispondo de poucos guerreiros.
Assim surge a figura do legendário e valente guerreiro, Sepé Tiarajú. Invocando pelo respeito ao seu povo, sua terra e a liberdade, Sepé bradou a frase “Esta terra tem dono”, marchando com mil e quinhentos índios contra o invasor. Percebendo a diferença entre as forças, Sepé apelou para a guerra de guerrilha, comandando pequenos contingentes que surpreendiam os invasores.
A bravura e a determinação do homem que ousou enfrentar com arco-e-flecha o poderoso exercito luso-espanhol não perdurou.
No dia 07 de fevereiro de 1756, Sepé foi morto com um golpe de lança, desferido por um soldado português e, sem poder responder, recebeu o tiro derradeiro do governador de Montevidéu, que servia a coroa da Espanha.
Logo depois, mil quinhentos índios foram cruelmente massacrados, finalizando a Guerra Guaranítica, que durou entre 1753 e 1756. Sem o seu maior líder, e já contabilizando muitas baixas em combate, e pelas precárias condições de subsidências a que foram confinados, os guaranis ainda resistiram até o ano de 1767, valendo-se das táticas guerrilheiras, aprendidas com Tiarajú.
Pedida a guerra, indígenas e padres se refugiaram no lado paraguaio. Percebendo que a presença dos jesuítas prejudicava o controle, o rei de Espanha os expulsou da região platina, me 1768.
Clique aqui para acessar cartilha com a história de Sepé Tiaraju
___________________________________
Texto publicado na Escrita 1, em 2006. 

Arquivos

Categorias

Meta