"Puerto Iguazú"

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Espetáculo de dança é inspirado nas Cataratas do Iguaçu.
(Por Bárbara Marques, especial para o portal Guatá) – 
Bailarino, brasileiro, 38 anos e uma carreira construída à base de determinação e intuição. Foi apenas com estas ferramentas que, inicialmente, Reinaldo Ribeiro pôs o pé na estrada, apostou em sua formação e ganhou experiência e reconhecimento fora do Brasil. Atualmente ele comemora uma de suas mais recentes obras: “Puerto Iguazú” – criação que vem abrindo mais e mais portas para sua trajetória profissional.
No começo era só uma viagem despretensiosa, até resolver permanecer na Argentina, matricular-se numa escola de dança e enveredar por este universo nunca antes sonhado por ele. Sem querer, Reinaldo desembarcou em Buenos Aires para passar quinze dias e acabou ficando por um ano. A intenção primeira era viajar para os EUA, mas como seu visto não foi aprovado, um amigo o convidou para passar uns dias na casa de familiares e ele aceitou. Gostou tanto da cidade que resolveu continuar nela, com a mesma mochilinha de verão que levara e sem falar uma palavra da língua local.
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A decisão lhe rendeu momentos difíceis de adaptação e sobrevivência. “Não conseguia trabalho, até mesmo por não falar nada de espanhol. Foi aí que esse meu amigo me aconselhou a fazer dança, enquanto aprendia o idioma, porque, para dançar, não precisava falar”, relembra Reinaldo que, diferentemente da maioria que se dedica a esta arte, pôs suas primeiras malhas e sapatilha aos 22 anos de idade.
Como o início de sua carreira, assim foi se dando o desenvolvimento, sem muito planejamento, sem muita pretensão. “Pouco pensava no que isso iria dar, ia fazendo apenas e as coisas iam acontecendo, as oportunidades aparecendo. A única coisa que eu sabia era que a dança clássica não era a ‘minha praia’. Minha identificação é com a dança contemporânea. Descobri isso depois de ver ‘Korper’, em Buenos Aires, uma obra apresentada pela Cia Sasha Waltz. Meu coração quase saltou pela boca, fiquei num estado de excitação fora do normal e disse ‘eu quero fazer isto’ ”, conta o bailarino, destacando nomes que o inspiram como Pina Baush, Mat Ek e Gallotta.
Do mesmo modo, a aposta como coreógrafo não poderia ter sido diferente. Reinaldo sempre gostou de criar, desde os tempos em que fazia teatro. Como teve a sorte de trabalhar com diretores que valorizam a colaboração, ele pôde interferir em vários processos, adaptando ou participando da criação. Metáforas à parte, daí a elaborar uma autoria plenamente sua foi um passo.
Em 2012, uma coreógrafa pediu a ele que fizesse uma coreografia para dividirem um programa. Ela tinha uma pauta em um teatro pequeno em Barcelona, mas não tinha o que apresentar. Nessa época, Reinaldo já estava na Espanha e o país estava em crise. A reboque da situação, ele pensava em voltar para o Brasil, talvez abandonar a carreira e investir em algum projeto pessoal. Mas antes resolveu viajar de férias. Foi parar nas Cataratas do Iguaçu.
“Quando cheguei frente à ‘Garganta do diabo’, meu coração disparou. Aquela quantidade de água caindo, com aquela força, me fez pensar que eu poderia me jogar naquelas águas sem medo, que elas me levariam a algum porto seguro. Foi assim, a obra surgiu dessa dedução louca. No começo não sabia, mas trata-se da metáfora da minha vida. É como se a obra me dissesse ‘vá em frente!, pule!’. Entendi como uma resposta aos meus próprios medos”, diz Ribeiro.
Entretanto, “Puerto Iguazú”, como o autor mesmo defende, é uma obra para ser interpretada pelo público de acordo com seu potencial cognitivo. Ele não deseja engessá-la numa só definição. O mais importante é passar a ideia de ultrapassar limites, transpor barreiras, vislumbrar caminhos. “Eu quero sensibilizar com temas humanos. O resultado dessa sensibilização, se vai ao encontro das minhas definições, não importa”, finaliza.
Reinaldo Ribeiro atualmente mora em Barcelona, ensina dança contemporânea, trabalha com direção e colabora como bailarino e na criação de projetos de outros profissionais da área. Ele está à frente do Coletivo Lamajara, como co-fundador e co-diretor, com as obras Puerto Iguazú, INNINGS e Skinned.
(Texto de Bárbara Marques, jornalista no Rio de Janeiro, RJ. Fotos: acervo do grupo)