Quando o Natal (e o futebol) venceu (a primeira) Guerra e o militarismo

  • – Um texto de Airton de Farias –

historiadascopasUm dos casos mais emblemáticos da paixão pelo futebol – e para não dizer, um dos mais belos – deu-se no natal de 1914, quando soldados ingleses e alemães saíram das trincheiras e se confraternizaram por algumas horas na “terra de ninguém”, expressão pela qual chamavam a área “neutra” entre as fortificações inimigas e severamente castigada por bombardeios.
A trégua aconteceu espontaneamente em vários locais do front ocidental (que ia do Mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França).
Coisas parecidas já tinham ocorrido na semana anterior, como em Armentières (França), quando soldados dos dois lados haviam acertado um cessar-fogo para que ocorresse uma festa de aniversário a um comandante alemão, bem como em Fleurbaix (França), para o enterro dos combatentes tombados nas batalhas.
No caso do que ficou conhecido como “trégua de Natal”, a iniciativa partiu dos alemães, que repetindo seus costumes, passaram a montar árvores de Natal nas trincheiras e a cantar canções do período.
Os ingleses, a princípio, surpresos e desconfiados, passaram a cantar também. Em pouco, soldados de ambos os lados estavam desejando Feliz Natal e confraternizando.
“Em meio à troca de cigarros, bebidas, chocolates, houve notícia de que alguém deu o pontapé inicial, fazendo um jogo de futebol emergir entre as crateras de lama.
Enquanto alguns relatos falam em uma lata de carne sendo chutada […], há quem diga ter sido utilizada uma bola de verdade, o que não era difícil, uma vez que, ao longo de todo o conflito, centenas de bolas foram enviadas ao front” (AGOSTINI, 2002: 31). Nos das 25 e 26, foram organizadas animadas partidas de futebol por centenas de soldados. No lugar das traves, capacetes, tocos de madeiras ou que tivesse disponível. Na maioria das vezes, o jogo era apenas por brincadeira, pouco importando o resultado. Mas também houve partidas “sérias”, inclusive com juiz, intervalo e troca do lado do campo. Ficou famoso o jogo em que tropas alemãs venceram o regimento inglês de Bedfordshire por 3 x 2, com um gol aparentemente em impedimento – a partida foi encerrada quando a bola furou ao cair no arame farpado de uma trincheira…
historiadascopas2A maior parte das confraternizações se deu nos 50 quilômetros entre Diksmuide (Bélgica) e Neuve Chapelle (França), envolvendo principalmente soldados alemães e ingleses. Como França e Bélgica estavam com seus territórios ocupados pela Alemanha, era menor a demonstração de boa vontade com os oponentes alemães.
Os comandos militares ficaram profundamente irritados com o que consideraram uma “insana insubordinação”.
Aquela trégua espontânea abalava o processo de satanização do inimigo que vinha sendo propagando há anos tantos na imprensa como nos campos de treinamentos pelos oficiais.
Entre tantos interesses econômicos, geopolíticos, doutrinamentos nacionalistas e militaristas, belicismo, desgraças nos campos de batalha, por alguns momentos, os jovens soldados perceberam que sem as imposições de ordens superiores, armas e obrigações nacionais, os “terríveis inimigos” não passavam de pessoas comuns, homens que estavam ali a seu lado, se divertindo, chutando uma bola, sorrindo, com saudade de casa, com medo da morte, sonhando com a paz e desejosos que tudo aquilo acabasse o mais breve possível.
Assim, compreende-se a fúria dos generais e comandantes: aquele jogo de futebol talvez tenha feito muitos soldados questionarem o sentido da guerra e da hierarquia militar.
Conta-se que em Wijtschate, na Bélgica, um jovem cabo austríaco que lutava ao lado dos alemães, chamado Adolf Hitler, também queixou-se do fato de seus companheiros estarem cantado com os britânicos, em vez de atirarem nos mesmos.
Os governos e os comandos militares (especialmente franceses) tomaram providências contra a “trégua de Natal”.
Dos quartéis-generais, saíram ordens expressas proibindo qualquer tipo de confraternização, sob pena de submeter os responsáveis à corte marcial.
Sir Horace Smith-Dorrien, comandante do II Corpo britânico, reagiu com uma simples instrução: “O Comandante do Corpo, portanto, ordena aos Comandantes de Divisão para incutirem em todos os seus comandantes subordinados a absoluta necessidade de encorajarem o espírito ofensivo das tropas, enquanto estiverem na defensiva, por todos os meios à sua disposição. Relações amistosas com o inimigo, armistícios não oficiais e a troca de tabaco e outros confortos, não importa o quão tentadores e ocasionalmente agradáveis possam ser, estão absolutamente proibidos” .
Os soldados tiveram que voltar para as trincheiras, embora, alguns deles, nos dias seguintes, tenham se recusado a matar os adversários – para manter as aparências, erravam os alvos… Durante alguns meses, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert (França) faziam de conta que o conflito não existia. Mas depois as lembranças das confraternizações arrefeceram e a carnificina aumentou. Para evitar um cessar-fogo espontâneo igual ao de 1914, os comandos militares tomaram precauções especiais, determinando que os bombardeios de artilharia fossem aumentados durante os Natais de 1915, 1916 e 1917.
A Grande Guerra deixaria um saldo de 10 milhões de mortos”.


Texto extraído de “Uma História das Copas do Mundo” (Armazém da Cultura, Fortaleza, 2014) de autoria de Airton de Farias, escritor e historiador cearense. Reproduzido do blog de Juca Kfouri, jornalista paulista.