Recordar vem do latim

  –  Uma crônica de Ana Carolina Miskalo  –

Recordar vem do latim.
Re=trazer de volta, codis=coração, ou seja, trazer de volta ao coração.
 

Ainda com meus 20 anos, já sinto falta de meu tempo de criança. Sempre lembro que quando pequena, eu e minha irmãs, nos divertíamos com tão pouco. Com os galhos da árvore que fora podada, fazíamos casas e castelo que se assemelhavam a grandes fortalezas.
As cordas velhas viravam cobras e fios de fogo que queriam nos pegar. As pétalas das flores roubadas das casas dos vizinhos eram amassadas e viravam maravilhosos perfumes. Os riscos na rua se transformavam em lindas obras de arte. As nossas brincadeiras ensaiadas se transformavam em apresentações artísticas nos pacatos finais de semana. Lembro que nesses fins de semana apresentávamos “As Fantásticas”. Nós, garotas da rua Capivari, ensaiávamos durante a semana passos de dança, dublagens, entre outras coisas e, domingo a tarde, nos reuníamos em alguma casa e nos apresentávamos para pais, mães, tios e outros interessados em ver um “divertimento alternativo”. Eu sei era muito brega, mas fazendo uso das palavras de um amigo, era “muito divertidíssimo”.
Brincava de esconde-esconde, balança-caixão, mês, mãe ajuda, pega-pega, mãe da rua, queimada… tantas brincadeiras… tanta diversão… tantas lembranças que nos trazem de volta boas recordações… Mas, o tempo passou, eu fui crescendo e, junto com as mudanças do corpo, vieram as mudanças de comportamento, pensamento e, assim, consequentemente, mudaram também nossas ambições e os nossos motivos para sorrir.
Nossas ambições passaram a ter valor monetário. E tudo o que queremos não é mais um abraço na hora da dor ou, talvez, brincar de tarde até não poder mais e depois entrar em casa tomar banho e dormir. O que as pessoas esperam hoje, é ganhar dinheiro para ser feliz, como se esse dinheiro fosse um meio de comprar a realidade e assim, dominá-la.
Muitas vezes deixamos de ver a alegria dos bons momentos justamente por causa desse pedaço de papel. Sem ele as pessoas se estressam, se batem, roubam e, em alguns casos, talvez até muitos, matam e se matam, se perdem de si. Digo isso, pois esquecemos que a felicidade não se resume em acumular um grande capital. Nos deixamos nos cegar pela inferioridade que sentimos frente a esse mal. E a felicidade não está naquela porta ali virando à direita, ela está em pequenos momentos, que muitas vezes ficam imperceptívei para nós pois estamos muito preocupados em ganhar dinheiro e gastar. Gastar para viver e viver para gastar. Não enxergamos, pois estamos bitolados de preocupações.
Podem me chamar de utópica, dizer que sonho demais (mas o que seria de nós se não sonhássemos?), dizer que sou boba e, por muitas vezes, uma boba muito alegre. Mas, eu posso dizer que, quando estou passando por aquelas crises existencialistas ou por momentos de grandes tristezas, tendo sempre recordar que a felicidade não é e muito menos será eterna, que a vida não é e não será perfeita, mas que podemos colori-la um pouco com a cor do nosso sorriso gratuito. Para isso, devemos valorizar o que há de belo agora por menor que seja essa coisa boa e sempre, sempre, tentar trazer de volta ao coração todas as coisas boas pelas quais passamos, não deixando de agradecer a força superior que nos rege, por estamos aqui mais um dia, sofrendo e aprendendo, pois a vida é uma escola onde estamos expostos 24 horas a novos conhecimentos. Deixando para trás os problemas que nos trazem a dor ou a insegurança de ser. Recorde de como era bom ser criança e traga um pouco dessa criança de ontem para dentro de você, encontra-as, reencontre-a. pois se as crianças tem algo a nos ensinar é justamente essa coragem de enfrentar as coisas ruins e lembrar das coisas boas.
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Carol Miskalo é poeta e professora do ensino fundamental em São Paulo.
Observação: Texto escrito em 2008 e publicado na revista Escrita 2. Carolina era ainda estudante de Letras em Foz do Iguaçu.

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