Rede de sementes do Xingu é premiada por iniciativa agroecológica

Projeto já recuperou quase 7 mil hectares de áreas degradadas do Xingu, Araguaia e regiões do Cerrado e Amazônia

Coletora Yarang com sementes de murici-da-mata nas mãos, no Território Indígena do Xingu (MT) – Carol Quintanilha/ISA

 

A Rede de Sementes do Xingu ficou entre os 11 vencedores do Ashden Awards 2020, um prêmio internacional destinado a reconhecer e premiar iniciativas com soluções comprovadas nos campos do clima e energia de todo o mundo incluindo empresas, organizações não-governamentais e o setor público.

A iniciativa foi escolhida entre mais de 200 ideias de todo o mundo. Com mais de dez anos de trabalho, a rede junto a parceiros recuperou quase 7 mil hectares de áreas degradadas na bacia do Xingu e Araguaia e outras regiões do Cerrado e da Amazônia.

Eliane Righi é agricultora e mora no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, localizado no município de Serra Nova Dourada, no estado do Mato Grosso. Ela conta que a rede é composta por 568 coletores entre indígenas, assentados e agricultores que vivem na cidade e pontua que cada grupo realiza uma parte importante do processo. Eliane diz que o grupo do qual ela faz parte ingressou mais tardiamente no projeto, em 2015, e detalhou como é o processo de coleta, distribuição e comercialização.

 

“Nós somos da agricultura familiar. Consorciamos adubação verde, além de feijão-de-porco, também temos árvores nativas de girico e Chicá, Cajú, além da fruta temos sementes para nos dar renda. No caso dos indígenas, eles coletam nos territórios deles. De lá, enviam para a casa de sementes de Canarana, aí a casa é quem as distribui”.

A coleta de sementes é realizada dentro de cada núcleo familiar ou aldeia. Nessa época de pandemia, a entrega é feita por meio de agendamento para evitar aglomerações e para assegurar a sustentabilidade financeira e isolamento dos associados, a Rede realiza o pagamento antecipado das sementes

Além desse cuidado específico por conta da pandemia, há o chamado “Encontrão”, no qual integrantes trocam sementes crioulas e outros itens que cultivam entre eles como forma de disseminar seus saberes.

Com a premiação, os coletores receberam um prêmio em dinheiro para apoiar ainda mais a iniciativa. O Ashden Awards é concedido anualmente por uma organização baseada no Reino Unido. A agricultura festejou o resultado e não esconde o tamanho do orgulho pelo reconhecimento, porque o projeto beneficia uma série de pessoas.

“Os indígenas estavam preocupados, porque o volume da água do Rio Xingu estava diminuindo. Foi quando o ISA (Instituto Sócio Ambiental) – que sempre trabalhou com os indígenas – estudou e detectou as nascentes do Rio Xingu fora do território. Assim, diversas entidades se uniram em uma campanha. Dessa ideia, nasceu a Rede de Sementes Xingu. Hoje, saber que a nossa rede foi premiada e que o nosso trabalho está dando resultado, que estamos conseguindo mudar um pouco o mundo, para a gente é muito orgulho”, diz ela.

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Para Eliane além de todos os benefícios do projeto, ela acredita que a iniciativa faz com as pessoas pensem em alternativas de cultivo para além do desmatamento. Os próprios agricultores envolvidos no processo entendem, atualmente, a natureza de outra forma e valorizam muito mais seus aprendizados e conhecimentos.

Para o agricultor Antônio Augusto Marques Martins, morador do Assentamento Caeté, na cidade de Diamantino, também no Mato Grosso a premiação para além dos benefícios da segurança alimentar, da recuperação florestal e da manutenção das nascentes, a premiação é a vida que leva hoje é também um resgate às suas origens.

Os pais de Antônio eram agricultores, mas devido a dificuldades, ele se mudou para a cidade. Aos 35 anos, o pai dele, hoje falecido, conseguiu um terreno no projeto de assentamento que foi homologado há 20 anos.

Com a morte do pai em 2003, ele assumiu o local e junto a mãe e a família que constituiu retornou ao campo. Atualmente, ele produz farinha e cultiva sementes nativas. Para a subsistência planta alface, rúcula, pimentão, pimenta verde, abóbora madura, batata doce, mas conta que no local – onde vivem 236 famílias – há também cultivo de monocultura e pequenas cabeças de gado.

“Eu pude resgatar uma coisa que sempre achei muito importante. Acredito que todas as fases são importantes, mas se você perguntar qual fase da minha vida eu mais gostei eu te diria que foi da minha infância. Então, eu pude, como várias crianças do interior, subir em pé de manga, de goiaba, de caju, ver animais, ter horta no fundo de casa. Depois de um tempo em que vivi na cidade, voltei para cá. Então, eu me sinto feliz”, destaca.

Para a consolidação da Rede foram utilizados mais de 221 toneladas de sementes de 220 espécies nativas. Apesar de morar no campo ser uma realização para Antônio, o prêmio foi uma surpresa.

“Isso de uma forma impacta, porque você ganha notoriedade fora do seu território, fora da sua região e a gente acredita que isso possa impactar bastante na questão de a gente fazer essa ligação com a recuperação ecológica. Então, isso impacta melhor, porque a gente consegue mostrar que é um caminho correto, menos oneroso e que a recuperação ecológica através das sementes florestais nativas”.

A Rede de Sementes do Xingu é uma rede de trocas e encomendas de sementes de árvores e outras plantas nativas das regiões do Xingu, Araguaia e Teles Pires. As sementes são coletadas e beneficiadas geram renda de R$ 4 milhões repassadas diretamente para as comunidades.

Por BrasildeFato

 

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