Saúde é também perceber a dor

  –  “A Cracolândia é o chão dos sem chão.
E eu cuido dos pés que pisam ali” (Agostina Oliveira)  –  

Hoje, dia 7 de novembro,  é o primeiro dia da Semana Acadêmica de Saúde Coletiva- Unila.
Entre várias programações, destaque para a oficina da enfermeira paulistana Agostinha Oliveira,
versando sobre a “Violência e as populações vulneráveis –
A Faculdade de Experiências na Cracolândia de São Paulo”.
Reproduzimos um trecho da reportagem de Gabriela Moncau,
para jornal “Vozes de Rua”, entrevistando Agostinha Oliveira:
Pés que pisam a cracolândia (Foto: Giorgi di Santi)
Pés que pisam a cracolândia (Foto: Giorgi di Santi)
O corpo fala”

“(…)Quando comecei a trabalhar na região central fui entendendo os perfis das pessoas, as malocas que antes eram bem definidas, sabia quem era quem. Mas nos finais de semana percebia que chegava outro grupo de pessoas, geralmente cobertos, só com os pés de fora. Pés muito marcados. Quem são essas pessoas? ‘É o pessoal da Cracolândia’”, relata. Foi quando começou a ficar atenta aos sinais dos corpos.

As fissuras, os ferimentos, a sujeira, a cor, as camadas, as marcas, a maneira de andar. “O pé é um elemento que realmente identifica. Observando é possível saber mais ou menos o tempo que a pessoa está lá, se o camarada ficou andando a noite toda, se é um usuário eventual que chega lá calçado e no decorrer do dia se perde e fica descalço. É interessante ver também os nossos pés enquanto trabalhadores, os pés das pessoas que chegam lá por exemplo das igrejas, da polícia, do pessoal que vai fazer a limpeza, do pessoal que está na função, na disciplina. Os pés dizem muito”, narra Agostinha. 

A partir do cuidado dos pés das pessoas que frequentam a Cracolândia, Agostinha busca estabelecer um vínculo e, com a escuta e o alívio físico, influenciar numa dinâmica de cuidado e conhecer os sujeitos que compõem a complexa dinâmica social da Cracolândia. O projeto Por onde andei – pés, por que me trouxeram aqui? inclui também o registro dos pés, feito pelo fotógrafo Giorge de Santi. “As imagens visam suscitar a reflexão e a discussão sobre as histórias e o contexto, para além do consumo do crack. Chamar atenção de que estamos falando de pessoas vivas e reais” explica o powerpoint que Agostinha preparou para difundir o projeto, feito sem financiamento.

“O pessoal chega mais na sexta-feira. Quando é sábado e domingo tem muita procura de curativo no pé. Aquele recém chegado às vezes fica cheio de bolha. E aqueles que já estão há tempos… tem um garoto por exemplo que eu olho a planta do pé e não sei o que é sola ou asfalto”, relata a enfermeira. Na linha de cuidado com esses sujeitos, todos os dias da semana e finais de semana alternados Agostinha está lá, sentada num banquinho, disponibilizando o cuidado com os pés, limpando, hidratando, massageando, conversando. (…)”

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