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Seis para dois

  –  Uma fábula de Sidney Giovenazzi  –  

Nota do autor:  “O conhecimento é um placebo para se descobrir que a única verdade é a fé”.
É muita pretensão minha, mas ousarei redigir uma fábula para ilustrar o alvoroço que ocorre sempre que se pretende a justiça.

laranjasConhecido por todas aquelas ruas, um viúvo buscava diariamente o que dar de comer a seus dois meninos. O bom quitandeiro, por entusiasmo do dia ensolarado, deu-lhe seis laranjas.
Afastou-se com dificuldade, porque os famintos lhe pulavam aos braços tentando catar as laranjas.
– Não! Vamos dividir igualmente, não é justo que o mais esperto coma mais.
– Como assim, igualmente? – indagou Zé Carlos.
– Já vai ver – disse o pai encaminhando-os à praça.
Sentou-se na grama e fez que os pequenos se aquietassem para assistir à partilha. Dispondo as laranjas já divididas em dois grupos de três, sentenciou:
– Assim, três pra você e três pra você. Viu, Zé? Desse jeito fica igual pros dois.
Antonio logo puxou uma das suas, e já se preparava para furar o cimo da laranja, quando o outro interrompeu, colocando a mão:
– Espera! Não é justo! Duas das dele são maiores do que todas as minhas!
O pai deteve-se, observando cuidadosamente. Até botou a cabeça de lado:
– É verdade, Antonio, olha essas duas, são maiores…
– Conversa, dividido é dividido, foi o pai que deu…
– Não, Antonio! Seu irmão tem razão, e a gente sempre tem que investigar…
– Ah, tá, daí este grupo que tem as maiores fica pra ele, e como é que eu fico? Com as menores?
O pai, vibrando com sua própria sabedoria, e positivamente admirado com a atenção de Zé Carlos, reposicionou as frutas:
– Veja, Antonio, se são duas maiores, é fácil. Essa fica com você e a outra vai pro Zé. Agora cada um tem uma grande.
Os meninos se abaixaram automaticamente, a fim de analisar melhor cada uma delas. Zé Carlos, então, descobriu outro desequilíbrio:
– Pai, uma das minhas menores tem a casca muito grossa, deve estar seca!
– É verdade – respondeu o homem. Vou abri-la com o canivete. Se estiver mesmo seca, reparto metade dela para cada um de vocês, e faço o mesmo com aquela ali do Antonio, que parece suculenta.
– Ta – respondeu ávido Antonio, que parecia estar ainda mais faminto que o irmão.
O pai cortou a laranja ao meio, muito cirurgicamente, já antevendo que uma repartição desastrada poderia colocar toda a justiça e o ambiente em risco. Os meninos aproximaram-se tanto que o sumo espirrou neles. Apanhou, então, aquela de Antonio cuja casca estava lisinha, e cortou-a também, com todo esmero.
– Ficou torto, pai, porra! – gritou Zé Carlos, se levantando.
– Me dá a metade maior, porque essa era minha! – respondeu Antonio.
– Calma! – interferiu o pai. Vou cortar mais uma vez cada uma das metades – falou, já ficando nervoso.
Trêmulo, remontou a laranja, para cortá-la mais uma vez. Enquanto descia vagarosamente a lâmina do canivete, Antonio percebeu outro problema:
– Olha aí, pai, o suco tá indo todo embora, de tanto cortar!
– Grande porcaria, essa de repartir – decepcionou-se Zé Carlos. A culpa é sua, pai!
– É, me dá as laranjas aqui – avançou Antonio, recolhendo apressado as primeiras três que conseguiu alcançar. Saiu correndo, mas, quando atravessava a rua, deixou que uma caísse. Rolando entre os carros, foi esmagada por um Corcel.
– Volta aqui, Antonio – gritou o pai, enquanto o incidente acontecia.
Saiu em direção ao filho e, antes que o ajudasse a atravessar de volta, lá na praça, Zé Carlos já furava uma das grandes e punha-se a chupá-la sofregamente.
O pai colocou a mão no ombro de Antonio, que chorava sem modificar a fisionomia. De longe, já dava pra ver Zé Carlos sorvendo com desespero a fruta.
– Tô com fome, pai – declarou o menino fujão, rompendo o controle e iniciando um choro desbragado.
– Calma, papai vai ajeitar isso…
Chegando onde estavam antes, foram recebidos por uma frase do Zé:
– Você perdeu a sua, agora só tem duas!
Antonio chorava copiosamente. O pai, colocando de volta as laranjas, apiedado, tentou contornar a situação.
– É fácil. Cada um come duas e uma metade.
– Como assim? – duvidou Zé Carlos. Ele levou as dele e perdeu uma. Só ele vai comer duas. Eu ainda tenho as minhas três – disse, puxando as duas que acabavam de chegar. Antonio continuava chorando. Desistira de brigar, pelo erro que cometera. Nessa situação, era mais prudente aguardar uma solução do pai:
– É ele que vai dizer, Zé, cala tua boca!
– Tá bom, eu vou dizer, então. O Antonio errou, mas você também não fez certo em chupar a laranja antes de ficar tudo dividido. Você se antecipou igualzinho ao Antonio. As laranjas serão divididas como falei, duas e meia para cada um – disse repartindo com decisão a outra suculenta.
Os meninos voltaram a se posicionar para observar a qualidade do corte do pai, mas ele interveio:
– Pode parar! – pondo as mãos sobre a fruta. Ninguém vai olhar nada mais aqui. Primeiro eu gostei de ver que vocês eram capazes de observar detalhes, mas agora eu não quero mais saber disso. Pronto, esta metade é sua, e esta é sua.
Separou a eles, ainda, as oitavas partes da outra laranja, que já estava partida e era mesmo um pouco seca. Deu, então, a Antonio, a outra, que estava íntegra, imaginando ter resolvido a contenda.
Antonio, então, antes de comer as metades abertas, furou a outra e pôs-se a chupar.
Do outro lado, Zé Carlos foi até compreensivo, aceitando o desígnio do pai. Mas Antonio voltou a chorar:
– Essa laranja… tá passada!

________final________

Algumas reflexões:
1. quem muito investiga, se envenena
2. justiça e conhecimento são grandezas, referenciais, tentativas, jamais um atributo ou uma verdade
3. o destino tem, como principal vocação, sofrer interferências
4. se você aceitar uma mediação, certamente vai culpar o mediador pelo rumo dela
5. se você não aceitar uma mediação, certamente viverá no instinto e na incivilidade
6. o pai é sempre o culpado
7. quando seis unidades são divididas entre dois, ambos tratarão a partilha como se tivessem recebido 2 e meia
8. é fácil dividir seis laranjas para dois; mas é impossível fazê-lo debaixo de estrito cuidado científico: a justiça simplesmente não existe


Sidney Giovenazzi é músico e escritor em São Paulo. O texto foi publicado na revista Escrita 45. 

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