Sem Íntimo

 – Um POEMA de Sidney Giovenazzi –

__sidney giovenazzi

Sem Íntimo

Falta o espinho na minha garganta
quando a premência do desabafo
já não me sai mais como na juventude
e a arquitetura de muitos números
desencanta-me a melodia gutural
Falta o vidro nos meus olhos
quando presencio a vergonha ornada
à impetuosa sofisticação do estratagem
pois gostaria de não ver o que me espanta
mesmo custando a paisagem que encanta
Falta a lâmina no meu pulso
quando em pensamento me embaraço
e o espírito em vital cansaço
prefere prosseguir no trabalho
de construir o futuro
a detê-locomo um mau impulso
Faltam-me as mãos nos ouvidos
quando fora a palavra estúpida relincha,
quando o pensamento em coices me balança,
e a compreensão simples e ululante
é encarcerada na caverna rupestre
simplesmente
porque todos concordam que fique lá
Falta-me a alma para me sentir límpido
ser do ramo humano o fruto puro
que apenas o mundo fosse iníquo
eu poder atravessar o fogo sem pulo
e conviver aberto e sem íntimo
Falta só isso

Sidney Giovenazzi é músico em São Paulo, SP.


Poema publicado na revista Escrita 40.