Sétimo Céu

  – Um conto de Sidney Giovenazzi  –

Efeito sobre foto de Mario Minowa
Efeito sobre foto de Mario Minowa

Nem a própria mãe do pequeno Bartolomeu tentou entender o estranho hábito do menino. Era lógico que fosse apenas hábito. Algo natural como o traço da sobrancelha ou o calor do fogo.
Naquela manhã, Bartolomeu saiu de casa para procurar pedras. Circulava paciente pelas redondezas. Cada dia lhe orientava uma direção. Driblava confusões, evitando as pedrinhas de defeitos de quintais ou muros. Preferia determinar-se que aquelas imperfeições deveriam ser inúteis para os seus planos.
Muitas vezes era necessário percorrer distância preocupante. Depois de uma chuva, tudo ficava limpo e o menino precisava da lonjura para encontrar as pedras. Era um estranho modo de passar o tempo. Mais tarde se juntava aos amigos, para a escola. Mas o ritual com que abria seus dias era respeitado por ele criteriosamente.
Depois do café com leite, abria a porta e descia a pequena escada, para tomar o rumo de sua procura. Levava consigo uma latinha. E se divertia com o som de seus achados, quando os depositava nela. O canto e o centro do fundo da lata produziam sonoridades diferentes. O formato delas também influía. Não considerava válidos os montes de pedra de obras. Era necessário alguma esforço para validar o interesse por elas. Bartolomeu imaginava aquele hábito como se fosse um trabalho.
Assim que voltava para casa, de latinha cheia, ia retirando uma a uma e posicionando nos degraus da escada. Era curioso notar que, apesar do cuidado com que o fazia, depositava os objetos sem a menor organização.
Depois era chamado para brincar, abandonava tudo, e ia com os amigos. Na volta, se decepcionava, porque via tudo espalhado, ou o sumiço de algumas de suas pedrinhas.
Não reclamava. Apenas se tratava de suportável frustração. Afinal, a limpeza da escada significava uma nova busca no dia seguinte. E era com a busca que se divertia mais. A busca e a comparação.
Um dia, de longe, viu sua mãe varrendo a escada. Mas era quando presenciava gente estranha, subindo os degraus e chutando para baixo aquilo que tinha tenazmente buscado pela vizinhança, que ele mais se intrigava. Outras vezes, quando era chuva forte ou tempestade de vento, ficava na vidraça, posto adentro pelo pai, analisando o movimento que o acaso produzia em suas pedrinhas.
Também comparava o tipo de gente que se desviava da calçada para subir um ou dois degraus e limpar a escada com chutes. Detectou aquele homem forte e circunspecto, que nunca passava ali em frente sem chutar para longe uma ou duas pedras.
Foi assim, no desenvolvimento desse cultivo, que Bartolomeu passou a considerar sua empresa o mais importante costume de seus dias. Tinha sete anos, e aquilo era o céu de seus dias.
Uma vez, Bartolomeu deitou-se em frente a um canteiro para observar o minimalismo de uma formiga. A quentura do sol não o incomodava, tamanha absorção que a cena lhe causava. Mal percebera o encontro de duas pessoas ao seu lado, na calçada.
A pequenina caminhava tortuosamente e estacionava sem motivo. Saiu do cimento e fez seus passos sobre a terra. Aquela irregularidade do novo solo tornava seu deslocamento ainda mais encantador. Pisava cada glóbulo da terra irregular com ainda mais leveza, como se nadasse. Aproximou-se da roseira e deteve-se. Cruzou e descruzou os bigodes muitas vezes. Até que decidiu subir. Naquele instante, Bartolomeu entusiasmou-se. Presenciaria a dificultosa escalada de uma formiga num pé de rosa. Aprumou-se, de modo que pudesse envidar a cabeça de baixo para cima, para não perder nenhum detalhe do esforço que o inseto deveria fazer. Nem se apercebeu dos cochichos das pessoas ao seu lado.
Pois a formiga caminhava como na calçada. Passos calmos, sem a menor dificuldade. Subindo, sem modificar o esforço, como na terra, por sobre os espinhos, com surpreendente tranqüilidade e garbo. Aquele bicho era forte de tanta delicadeza. Poderia pisar qualquer superfície sem se ferir. Aproximou-se da flor e fez que Bartolomeu notasse o aveludado viço daquela beleza vermelha. Quase desistiu da formiga, porque se encantou com o fato de que, de perto, uma pétala de rosa se revelava meio branca além de vermelha. Mas notou que o inseto parou novamente, tramando os bigodes. Parece que o fazia sempre que necessitava decidir-se. Bartolomeu pensou no seu avô. Quando ele alisava os bigodes. Todos silenciavam. Era o momento em que decidiria alguma coisa.
A formiga, então, decidiu-se, e subiu na pétala. Chegando ao topo, dobrou-se, sem cessar o passo, e sumiu dentro da flor. Assim que desapareceu, uma mão se aproximou e arrancou a rosa. Bartolomeu, assustado, seguiu o movimento, que o levou ao casal de adultos. Eles conversavam baixinho ao seu lado, com o sol ao fundo. O rapaz colocou a flor nos cabelos da moça e, quando o menino se preparava para entristecer-se, ouviu do sorriso dele:
– Eu te amo.
Envergonhado, saiu correndo. Mas levou o contrapeso da excitação. Sim, porque meninos como ele se excitam com enigmas. Saboreiam-nos, como fonte de vitalidade. E ele ficou com aquele enigma: calculando o que seria um destino, quando se é levado repentinamente para longe dele. E indagou-se se a formiga chegaria viva à casa da moça.
Afinal, perguntou-se: ela havia sido levada de seu destino ou estaria irremediavelmente a caminho dele?
Foi dormir com aquele pensamento insolúvel, o coraçãozinho batendo pela boca, os olhos se recusando a fechar.
Na manhã que não chegava, decidiu que procuraria a formiga. Desceu afobado pela escada, esquecendo-se pela primeira vez das pedras. A moça, ele conhecia. Morava ali perto, numa casa cinza, com os avós. Mas como descobrir alguma coisa sobre a formiga, com aquela pessoa de quem só conhecia o endereço?
Foi até a casa cinza e não deixou de notar, no caminho, algumas belas pedras, que preferiu deixar onde estavam. Tinha um novo, arrebatador interesse. Parado em frente à casa, estático, esperou o tempo lhe mostrar o que fazer.
Ouviu ruídos dentro da casa.
Quando percebeu um movimento na maçaneta da porta, apressado, correu de volta à sua escada, que ainda estava sem pedras.
Aflito, sentou no degrau e refletiu. A ingenuidade de uma criança não inibe sua capacidade de reflexão. A pureza de seu silêncio é que nos dá a impressão de viverem no vazio.
Pôs-se a caminhar na direção oposta da casa cinza para catar pedras. Quando voltou, foi dispondo-as, sem pensar, numa organização que jamais planejara: a maior no degrau de baixo e as menores se sucedendo degraus acima. Todas do mesmo lado esquerdo.
Dia seguinte, antes que Bartolomeu saísse, sua mãe levou a vassoura à frente da casa. Sorriu, ao reparar a cuidadosa disposição das pedras do filho.
Mais tarde, ao sair, ele se surpreenderia porque, pela primeira vez, suas pedras ainda estavam lá. Os degraus estavam limpos. As folhas e todo o pó haviam sido varridos, mas as pedras estavam mantidas onde ele deixara. Ficou olhando para elas e, pensativo, desejou que pudesse encontrar a formiga como encontrara as pedras. Correu, então, para o canteiro. Deitou-se e esperou. Então, passado algum tempo, viu a aproximação de uma abelha. Decidiu observar o seu vôo. Ela voava lentamente, como se flutuasse no ar, insistindo a orbitar outra rosa. Ali do lado, a ferida permanecia: o caule solitário da rosa arrancada.
Sabia que abelhas machucam quem as aborda, mas estava em segurança, pois só observava.
– Bartolomeu!
Virou-se e viu o rosto bonito da moça que lhe levara a formiga. Sorria:
– Você gosta de flores?
O menino estranhou que ela lhe conhecesse o nome. Adultos sempre sabem os nomes das crianças, ele pensou. Pois ele não sabia nada dela, além de que morava naquela casa com os avós
.
– Gosto, respondeu sem convicção. Onde está a rosa?
– Lá em casa, num copo?
– Com água?
– Claro, respondeu a moça surpresa e achando graça.
Tragédia, pensou, olhando para o lado. A formiga já deve estar morta. Ou, breve, morrerá de fome, naquela ilha de viço e majestade, vazia de comidinhas.
– Foi um presente do namorado, mas, se quiser, podemos buscá-la para você.
– Pode?
– Não quer essa que estava olhando?
– Não, senhora, essa é da abelha.
– Então vamos.
De mãos dadas, foram até a casa cinza.
Chegando lá, Bartolomeu mal se lembrou da vergonha. Foi entrando, havia muito que observar. Os móveis, o cheiro, o som do rádio vindo de um quarto. Com toda a apreensão pelo desfecho, ainda conseguiu notar que o cheiro de uma casa e seus objetos eram uma coisa só. Chegando à cozinha, viu, como se fosse um palco, uma pequena mesa atoalhada com um quadriculado verde. Sobre tudo, a rosa, flutuando imóvel no copo. A moça se aproximou, mas foi interrompida:
– Não!
Parou, e olhou sorrindo para o menino. Ele se adiantou, subiu os joelhos numa cadeira e, ansioso, buscou na rosa a formiga.
Depois de algum tempo, recebeu uma generosidade:
– Vou apanhar um suco pra você. Puxa, você gosta mesmo de rosas…
Bartolomeu mal escutava. Apenas procurava um ângulo para a cabeça, a fim de enxergar entre as pétalas. Desprezou o suco, trocando de cadeira, sempre ajoelhado, os olhos bem abertos, debruçando-se sobre o copo decorativo.
Cansou de menear a cabeça, mas persistia o olhar fixo.
De repente, viu os bigodes se cruzando. Era a formiga saindo de seu novo lar. Claro! O destino de um ser é o lugar em que ele está! Saindo inteira do coração da rosa, a formiga lhe pareceu serena.
– Quer levar?
Bartolomeu ouviu bem a pergunta. Fitou a moça, gentil e já afeiçoada ao garoto, mas ficou olhando-a pensativo.
– Não, obrigado… essa é a casa dela, e desceu da cadeira.
– Não vai tomar o suco?
Nem respondeu. Saiu correndo da casa cinza, para ver as suas pedras.
Quando se aproximava de casa, já pôde ver. Estavam todas ali, na mesma posição em que as havia organizado. Mas percebeu a aproximação do homem que costumava chutá-las. Então, deteve-se, e esperou, no meio da rua, pela solução da cena. O homem, um tipo rude e açodado, diminuiu o passo, enquanto olhava os degraus. Vendo que estavam todas colocadas, cuidadosamente, de um lado da escada e por ordem de tamanho, seguiu caminho, sem agredi-las.


Sidney Giovenazzi é escritor e músico em São Paulo, SP. Foto do arquivo de Mario M. Minowa