Surdez

  –   Um conto de Nilton de Nadai Filho  –

 

Era um mistério muito grande, do tamanho do universo e resolve-lo parecia uma tarefa tão dispendiosa como contar todas as estrelas das galáxias. Não se sabe ao certo quando ocorreu, se foi algo brusco ou insidioso, se foi natural ou iatrogênico; enfim, era inexplicável o fato das pessoas terem desaprendido a escutar.
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A hipótese mais discutida dissertava que, por não haver mais sentido ao homem o sentido da audição, a peneira da seleção natural alargou seus poros, ao passo que os surdos infiltravam-se na população. Mas o que é mais interessante, e ao mesmo tempo tenebroso, não é a quantidade de impossibilitados de ouvir, pois esses não eram muitos, mas assim os que nunca foram capazes de escutar.
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As ruas eram escuras e silenciosas como uma prisão, na qual todos viviam em regime solitário, sem grades para se apoiar e nem carcereiro para ouvir os gritos desesperados por atenção. As pessoas se trombavam pelas calçadas, como se chocassem em móveis de cozinha. Ao final do dia, todos seguiam para suas casas, como numa romaria. Num silencio indolente, enterravam-se em suas catacumbas, permanecendo num claustro imperturbável até o despertar da próxima manhã.
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Junto à alvorada, Júlia abriu seus olhos. Esticou seu braço, mas não havia ninguém ao seu lado, foi apenas um sonho. Levantou-se como toda manhã, lavou seu rosto como toda manhã, conversou com o espelho como toda manhã, e como toda manhã ele não respondeu.
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Apesar de frias e silenciosas, as paredes de seu apartamento lhe davam mais segurança que as pessoas que conhecia. Sempre presentes, as mesmas paredes que delimitavam seu cárcere, a libertavam da censura alheia. Eram as únicas a assistir seus prantos, a ouvir o uivar de seus lamentos, a sustentar os tombos trépidos; e, mudas, acobertavam tudo.
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Antes de sair de casa para ir ao trabalho, Júlia fitou a parede mais uma vez, ela olhava para um retrato de quando era criança aquele olhar infantil, cheio de sonhos, apesar de ter pretensão alguma além de brincar de ciranda, tinha  mais brilho do que aquele olhar cego que a encarava friamente no espelho toda manhã.  Ao lembrar-se de quando contava os dias para chegar os finais de semana, e então poder brincar; Júlia ouviu seu próprio suspiro, e sentiu um forte hálito de nostalgia. Aquela imagem pendurada enfeitava a parede com o último sorriso que enfeitou seu rosto. A única lagrima de que se recordava era doce; e as tardes chuvosas de domingo eram os únicos motivos que a faziam sentir aquele elixir adocicado escorrer para seus frágeis lábios.
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Caminhando para seu trabalho, Julia estava desatenta; num estado catatônico, aquele retrato continuava pregado nas paredes vivas de sua memória. Sentia saudade de sorrir, de chorar, de sofrer e de aproveitar o momento para depois se arrepender e sofrer novamente. Ao voltar de sues devaneios, olhou para frente, o sinal de pedestres estava vermelho. Não havia carro algum na rua, mas esperou. Ensaiou um avançar de passo sorrateiro, mas aquele aparelho inanimado desanimava suas pretensões inglórias. Assim que o sinal ficou verde, ela avançou. Cabisbaixa, envergonhada pelo insucesso, derrotada por si mesma, sentiu um aperto no peito, uma vontade louca de gritar, mas com a boca muda, deixou os olhos falarem por si, e uma minúscula lágrima correu seu rosto abaixo. No meio da rua, mudou de direção; angustiada, voltou para o lado de onde partira.
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Pacientemente esperou o sinal fechar mais uma vez, e ao ver a lâmpada vermelha desafiá-la novamente, correu triunfante, como os plebeus na Queda da Bastilha.
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Uma sensação de fraqueza infligiu Julia, como se tivesse acabado de acordar de um sono profundo; seus olhos ardiam com tanta luz, como se tivesse saído de um ambiente escuro; e seu coração estava acelerado, como se fosse domingo de sol. A questão que a intrigava nesse instante, era quando foi que ela fechou os olhos para o mundo e repousou num leito estéril, coberta apenas com um manto de estoicismo.
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A cada passo em direção ao trabalho, mais uma folha de sua memória era virada e examinada com zelo. Muitas imagens passaram por seus olhos, o dia que trocou sua chupeta por uma boneca, a tia da pré escola, o primeiro namorado, o primeiro ex-namorado, seus 15 anos, o vestibular, a formatura, o primeiro emprego e o último salário.
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Ao chegar na empresa, se deparou com a resposta. Aquele edifício grandioso, com colunas majestosas, jardins esplendorosos, um hall com quadros magníficos, estava vazio. Não há ser humano digno de tocar um piso tão impecável – pensava. Sozinha, olhado para os espelhos da fachada, não conseguia entrar no prédio, apesar de passar por aquela porta com tanta naturalidade diariamente. Quando entrava, apenas seguia o fluxo, com olhares fixos para o nada, silenciosos, ocos.
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Observando o prédio, notou que as colunas eram apenas ornamentais, não sustentavam peso algum. Nesse momento, voltou-se aos espelhos do edifício, sua maquiagem derretia, seu rosto inteiro se liquefez. Levou suas mãos ao rosto, sentia que ele era feito por uma substancia amorfa, parecida com argila. Num impulso, começou a modelar seu rosto novamente, mesmo sem nunca ter feito escultura alguma. Com uma tranqüilidade imprópria para o momento, se aproximou mais do espelho, e reconheceu seu novo semblante, era o mesmo de quando era criança. Aquele olhar pendurado na parede da sala, era o mesmo que estava em pé, logo a sua frente, no espelho. Jogou seu blazer com tanta gana, como quem se livra de algemas, que seu celular caiu no chão. Ao juntá-lo, viu no display que era domingo, olhou para o céu, fazia sol.

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Nilton de Nadai Filho, brasileiro, é médico nos EUA. À época da criação do conto era estudante em Pelotas, RS. Conto publicado na Escrita 18.