Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print

Tantas palavras, um texto de Célia Musilli

Célia Musilli é jornalista. O texto foi publicado na revista Escrita, edição 18.

 

Elas formam um jogo desdobrável, evolutivo ou restritivo.

“Na Grécia, as crianças brincam com ossinhos e os homens com palavras”. A frase de Lisandro, que foi um general espartano, caberia na boca de um poeta. Não me canso de pensar sobre o uso das palavras, a sua descoberta, a mudança radical que significam a fala e a linguagem a nos diferenciarem de todas as outras espécies.

Não fosse a palavra, não poderia “visitar” vocês neste domingo, pessoas que nunca vi e com quem tenho tanta intimidade. Nos relacionamentos, só devemos nos preocupar de fato quando cessa a comunicação, a ponte para descobrir coisas novas, aspectos proporcionados por conversas e trocas que passam pelo conhecimento e o afeto.

Palavras têm tanto poder que nos fazem rir ou chorar. Sua falta pode nos dar a sensação de morte. Seu excesso pode nos cansar a ponto de querermos o silêncio, como quem se recolhe embora ainda ouça o seu diálogo interno. Palavras podem ser tão complicadas quanto papibaquígrafos – e nem se preocupem em procurar o significado desta palavra, ela não existe, é apenas um trava-línguas como “o mafagafo que tem muitos mafagafinhos”. Ou podem ser tão simples quanto mãe.

Os trava-linguas ou parlendas são jogos muito antigos, citado até no Kama Sutra, onde aparecem como um das “64 artes a serem praticadas pela cortesãs”. Ou seja, uma brincadeira principalmente de mulheres e crianças, que adoram explorar a graça dos vocábulos pelo ritmo, sonoridade ou dificuldade.

Palavras são desdobráveis, de uma mesma raiz saem inúmeras possibilidades. Grafia, que vem do grego e significa escrever, deu origem a gráfico, referente à escrita, ou ainda a autógrafo, coisa que agrada demais a tietes e celebridades e quer dizer “escrito pela própria pessoa”.

As palavras em si são um jogo, desdobráveis e evolutivas, diria mesmo que sempre vivas, embora existam também as que desaparecem ou morrem, como quase tudo o que não se usa.

Meu avô utilizava expressões arcaicas como senhoria e passadio, duvido que um adolescente hoje saiba o que isso significa.

Então, aí vai: passadio, alimento usual.

Palavras ainda podem ser verbos como “amar” ou substantivos como “amor”. E as duas são lindas. Podem ser usadas como metáforas ou metonímias, ampliando significados como um viés “intuitivo” da língua, que se desdobra infinitamente.

Talvez esta condição da palavra, de se movimentar como estrela ou galáxia, expandindo ou restringindo significados, provoque em mim o encanto do jogo eterno. Até por isso, em vez de lã teço textos. Eterna trama a vestir inúmeros sentidos.

Célia Musilli é jornalista. Texto publicado originalmente na revista Escrita nº18.

Arquivos

Categorias

Meta