Temporalidade

  –  Um conto de Silvio Campana  –  

temporalidade

…Na rua agora há uma algazarra de moleques. Uma algaravia de crianças saindo de algum lugar. Será que são meus fantasmas me chamando ? Eu não consigo identificar ninguém pela fresta da janela…

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Eu optei por diminuir a solenidade das coisas para sobreviver a mim mesmo, ao meu passado e ao meu sonho, ansioso que sempre fui de mudar o mundo. De um racionalismo estranho na juventude amadureci para uma posição ainda mais tosca. Uni a omissão, com o que me absolvo, a um olhar mais vivo para as camadas dessa cebola que chamamos de humanidade, e assim experimento, pranteio e festejo os fatos. Oriento minha existência a partir disso. Percebi essa saída quando vi que tenho coisas dentro de mim que registrei e que ainda esperam por serem digeridas. Às vezes, calmas, são pacientes. As vezes agressivas, me fazem incorrer na trapalhada de vê-las embalsamadas dentro de mim, sem sua própria dinâmica. Diria até em exagero que já não consigo traduzir tempo e espaço como algo que organiza minha forma de ver o mundo. Agora prefiro dizer que tateio a existência em meio às suas aparências e armadilhas; muitas delas com um dos dois vértices desse binômio extraviado.

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…Entre a veneziana e minhas narinas, há um perfume do jasmim, pendurado como sedução no paletó de meu avô; há também mandarinas ácidas misturando cítrico aroma ao mijo amanhecido nos colchões ao sol no de outono. Não há nada também. Não há o adocicado da madeira da casa de dois pisos feita de pinho e peroba. Há tudo e não há quase nada nessa espécie de luz que vem da rua. Nem meus mortos, nem meus vivos. Agora o que há é a urgência dos estilos. A palavra marcada para ter ritmo entre as escolhidas no discurso da manada. Agora não sou, só fui ou seria, mas eu teimo.

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“Não há possibilidade do passado ou do futuro sem o presente. Afinal, dentro de um entendimento do que é real, só há o que se vive a cada momento”. Li certa vez e não entendi. Era dia claro, manhã clara, molduras de uma partida. E eu guardei para recordar depois.

Essas conotações que damos às coisas, acontecimentos e idealizações do homem usando a referência de tempo não pode existir sem o presente e, por isso, sem a própria dimensão de indivíduo nisso. A história, como consequência, eu escolho ver sob o aspecto da consciência. Então ter memória e sonhar o futuro é ter uma formulação de consciência no presente. É disso que pode vir a ideia do que lembrar, do que registrar, do que construir, reconstruindo-se sempre.

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Agora o cheiro é outro. Tem a leveza dos primeiros pelos na minha cara e no púbis branquelo da menina da rua que nos levava aos domingos ao campo de futebol. Mas o acompanha um hálito ranço extraído debaixo da escadaria do único predinho da avenida. E tem as manchas de chocolate na pele antes do cinema das seis, no Star, ao lado da escadaria. Meus dedos estão com a viscosidade daqueles dias. Meus dentes ainda trincam entre o desejo e o medo adolescente de não ter o que fazer quando fizesse.

Mas olho e vejo a escuridão escancarada na janela que se adianta perante a arritmia de meu coração daquelas tardes.

Eu e meus olhos; eu e meu sopro de vida que realizo a cada som externo. Vem de lá o convite, vem da rua. Anoiteço em busca de paz enquanto a algazarra do mundo passa em procissão. E meus temores fazem minha cabeça delirar coçando cada gaveta do cérebro atrás das cores daqueles dias. E vem tudo à cabeça. E não há nada.

Escolho as páginas nos cadernos dos jornais. E me pego a fazer. Como se cortar papeis em comunhão com a vontade de mudar a história me dissesse a velocidade dos meninos que agora gritam bem ao longe. As lágrimas escondem o pavor, tenho vontade mas não abro a janela. E no ressentir, percebo o perfume das orquídeas mal cuidadas entre os livros da revolução.

Junto da porta dos fundos, a imagem salitre do Chile em liberdade. O pôster engordurado na parede da cozinha da república de estudantes. Às seis, um pouco antes do primeiro ônibus rumo ao nada além do Igapó, em Londrina. Por cima dele, tem as curvas dos pequenos seios orientais e o riscar das mãos nos mamilos entumecidos com o licor de avelã da finaleira da noite. Às seis, um pouco antes do primeiro ônibus rumo ao nada além do Igapó.

Olho e não vejo mais a fresta na janela, o som dos meninos se foi. Meu avô e seu jasmim também. Em seus lugares, a nítida impressão do calor do corpo da japonesa e os ácaros dos panfletos seculares.

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“O que nos faz humanos, numa ideia reducionista é, afinal de contas, o lembrar e o sonhar. E isso, coletivamente, tem suas peculiaridades. Não se sonha um só sonho numa sociedade de classes, não se lembra um só passado, numa sociedade de classes. A história seria então o próprio confronto desses interesses.’

Escrevi uma vez e me libertei à época.

E agora não há nada no pequeno rebanho de palavras bem dispostas que me emocione. Só há um gesto morno e preguiça. Só as mentiras sinceras do cantante daquela época e as de hoje. Só há o que nunca fomos e queríamos ser. No futuro, no futuro… E no futuro não há e menos ainda no passado.

Encosto meu ouvido na janela fria. Cavo um buraco no vidro e brinco de arqueólogo com os poucos sinais que vem de fora. Aqui dentro, os fósseis. Há tudo e não há nada. Não me contento com a imaginária voz de meu pai e de meus irmãos, aqueles biológicos e os da minha camaradagem, num crescendo de silêncio que espelha a solidez da velhice de todos, a idade da minha e o cinza que atacou nossa altivez.

Há um garrafão de mosto barato e seu aroma amanhecido em cima da madeira escovada pela palha de aço e mãos servis, desde sempre. Há um círculo sujo e ingênuo em nossas babas do álcool e nas latrinas dos bares nas cidades. Há uma melancolia na cinza em cima do balcão. Sutilezas das lembranças do canto desafinado das madrugadas visitadas.

Nos corpos que conto entre os combatentes do olvido, tenho a impressão de ter visto azuis, verdes, tinturas de um vinho envelhecido com a pele de mulheres e homens, crianças. E vi o bem aventurado mundo dos líderes se misturando ao dos déspotas. E não há nada. O que sobrou sou eu e tudo aqui. E há tudo para se contar. São carcaças fétidas próprias para serem penduradas no varal de exposição alternativa.

Na vida fluída de agora, só um espesso caldo de indecisões e espetáculos medianos.
Sou multidões, assim como os outros. Somos multidões verborrágicas esperando um último sinal. Nosso maniqueísmo foi travestido com a relatividade. Dramatizamos nossos fantasmas sabendo de que nada vai acontecer, mas que tudo pode ser bom, acéptico, do bem e et cetera e tal.

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Na rua, a algazarra volta. Ela não me dá espaço para a paciência que preciso para pensar e lembrar a morenice da jovem que cantava baixinho a alegria de estar viva. Não sei o que se passou com ela, comigo e com todos os meus camaradas. Com seus amores e ódios, com nossos desejos e religiosidades. Não sei o que se passou com nossas divisões e estratégias. Mas seguramente não temos mais cor, nem diferenças. Viramos o recheio do pastel. Carne moída embalada para presente.

Agora há um perfume em profusão. Vem das mentas que amassamos num último verão. Vem das conversas tênues sobre como poderia ser o futuro tanto tempo atrás. Não sei onde estão guardadas, mas estão em algum ponto de minha vida cerebral.
Lá fora, nos muros e nas paredes, uma sintonia fina entre a inexistência de identidade e a violência dos atos, pulsa.

No Rio, uma mulher é vítima da raiva e frustração de trinta homens e do machismo que queima em todos nós. Numa avenida em Iguaçu, um negro haitiano tem a cabeça aberta pela iniqüidade de outros tantos e pelo cinismo de todos nós. Na capital, uma moradora de rua vira a morta da rua pela mão de um contribuinte e pela indiferença em que cohabitamos. No Centro Oeste, uma criança se subtrai da vida entre os Kaiowás. Na Sorbonne, um acadêmico faz doutorado. Eu, aqui, nesta fronteira, recorto e guardo.

Recorto, inerte, e guardo. Agora já não é possível dizer que não há nada. Agora é um tempo precioso para o passado e para o futuro. Agora é já…!

Ainda faz pouco, a televisão mostrou tanta gente nas passeatas. Uns de vermelho, vermelho sangue, como o dos mártires que cultuávamos na vivência e em nossas aventuras imaginárias. Outros, aos milhares, de amarelo, camisa da seleção, gritos de vingança e truculência. A guerra das cores diferentes. Diferentes e, no entanto, com um mesmo azul infinito de cenário. Como nada me parece daquilo que lembro ou sou. Há tudo aqui e não há nada.

Entre a mesa e meus olhos, o viés que fiz para recortar no jornal a foto daqueles outros tempos. O sopro do vento me faz filtrar um pouco de fumaça do combustível dos carros. Não os vejo atrás da janela fechada, mas na esquina, aceleram. Conto os segundos, lembro das cores do semáforo, imagino o movimento automático dos motoristas para partirem. Escuto o som de seus corações. Inquieto, me afasto do breu da janela. O frio no estômago é a nova morada do buraco que cavei no vidro. Na rua, já não há nada. Aqui, já não há nada. E, em mim, o receio do espelho.


Silvio Campana é escrevinhador às vezes na fronteira. Texto que compõem a Escrita 45.