Torto

Um conto de Nilson Monteiro

A garrafa, com pinga e groselha, atirada nas águas do peito para fisgar alegria, nadou nos olhos. Gozado, nunca tinha chorado de alegria.

Mas a fisgada no peito parecia doer mais que a cabeça enfaixada, aquele pano tingido de vermelho. E alegrava feito sabiá no salto da manhã. Sei lá por que.

Os gringos caíram de quatro, explicaram, e você foi o demônio, o anjo que dançou, infernizou, bailou, até esgota-los, mãos postas, de joelhos no chão, pedindo clemência.

Até a torcida adversária bateu palmas, gritou pra dentro, emocionada. Sei lá o que palavras que não conheço querem dizer.

Só lembro que quando fui praquele país, onde não tem pinga com groselha nem pra remédio, pensei nos gringos como lambaris – teriam que morder, engolir os anzóis nas minhas mãos. Ali ó: na unha. Ou nos pés, como queria e falava o treinador. Ou nas minhas pernas, pensava. Não pensava, ria. Sozinho.

E depois daquela pedrada, engraçado, os pelos do corpo todo ficaram durinhos, como quando eu chorava feito criança com saudades. Saudades do rio, saudades da mulher, da fábrica, do boteco, do bairro, das ruas magrelas, dos amigos, das filhas, da cachaça com groselha, dos campinhos.

Era uma pedra deles, tinha time. Era uma pedra com raiva, estrangeira, derrotada, uma bala, bola bicuda. Fiquei com uma coisa assim na garganta, nos olhos, na boca. Mastiguei aquele gosto. Nem liguei mais pro juiz, que me expulsou com um apito só, assombração vestida de preto. Ou pro jogo que ainda faltava naquele campeonato louco que não tinha nem segundo turno.

Falar bem a verdade, fiquei assim parado, morno, olhando pra vida e pro riozinho devagar, com toda a certeza que tinha quando moleque: essas pernas ainda vão servir pra alguma coisa.

Tortas e tudo.

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Nilson Monteiro é escritor e jornalista em Curitiba, Pr.