Tourniquet

  –  Um conto de Luci Collin. Uma ilustração de Simon Taylor  –


Fica quietinha que a mãe vai tomar um banho. A mãe foi no salão fazer as unhas. Liga depois que a mãe tá dormindo. Foi no shopping. Agora não que a mãe tá cansada. Foi na farmácia. Tua mãe não foi na reunião dos pais? Comprou um vestido novo pra ir pro trabalho. A mãe não foi ao supermercado. Vai chegar mais tarde hoje. A mãe esqueceu que era o aniversário.A mãe não vem no fim de semana. Comprou sandálias roxas pra ir pro trabalho. A mãe não apareceu desde quinta. A mãe foi passar as férias com o gerente. A mãe nunca mais saiu da banheira.
Manusear de peças raras. Manhã, eu me alimento de esferas. Os procedimentos os uivos as presas umedecidas, tudo talvez me torne recipiente e reconheço um brilho e um lapso. Tarde, talvez alguém impermitido sobe essa escada, os estreitos os sons são conversíveis.Não velo coisas que entristeçam. Penso ampliamentos. Uma voz não areada liga. Ligará de novo depois das cinco das dez das quinze e novamente. Conteúdo: relógio, voz, jades e embrulhos. Fim da tarde, as formigas voltam. Voltam lembranças imparcializadas. Eu tive medo alguma vez confesso. As imagens são impenitentes. Obstinei em águas e lençóis moídos. Rasguei o almanaque sem nenhuma pressa. As traças solfejaram uma canção francesa. Colecionei matérias desusadas. Supõem-se muito pouco depois da sopa do vinco do soluço do esmalte do verniz do betume.
do sangue
Teu pai é um cafajeste. Teu pai é aquela estrelinha ali, tá vendo? Teu pai era lindo. Teu pai sabia falar inglês. Teu pai tinha uma casa enorme naquele bairro chique. Teu pai pilotava avião. Teu pai adorava esquiar. Teu pai trabalhou de garçom por dois anos naquele restaurante ali, tá vendo? Teu pai tinha olhos verdes lindos. Teu pai não tinha um dente na boca. Teu pai sempre me mandava flores. Nem pra te dar um sobrenome, aquele desgraçado do teu pai. Come o bolo. Para de fazer essa cara de choro. Por que está olhando pela janela?
Para falar de certas coisas: inventar um roteiro vindo de trapos. Inventei um mapa da rede de esgotos e mais os ratos e suas famílias. Para falar de certas coisas pari um diagrama mostrando o curso do sangue arterial e mais o mistério dos trombos. Me desloco com incrível destreza. Estou muito bem. Na minha cabeça há pequenas pedras cinzas. Quando o primeiro toque pela primeira vez as mãos flores. Quando tocaram pela última vez as mãos engolir águas.Depois que a porta se fecha há o mundo. Seria uma pergunta: não podemos ser. Neste que é o mundo somos um outro somos só o imediatamente somos da mesma forma apenas depois.
Vem aqui com a vovó, querida.Vem aqui que o vô tem um chocolate pra você. Vem aqui que a vó comprou uma revistinha pra você. Vem aqui que o vô vai te levar na pracinha. Vem aqui e dá um abraço na vó. Vem aqui e dá um beijo no vô. A vovó te adora. O vovô te ama muito. Fica boazinha que no Natal você ganha uma boneca que fala. Olha que linda a minha netinha ela se chama, como é mesmo? Por que o teu pai é tão velho? Por que a tua mãe é tão velha? Por que você nunca viaja nas férias? Por que você usa essas roupas estranhas? Por que você não tem uma lancheira igual das outras? Fica quietinha que no Dia de São Nicéforo você ganhará um par de ases.
Por fim não compreendemos viver dentro do milagre. Aquelas brincadeiras aquelas lembranças divididas aquelas horas de risos aquelas coisas todas quando se dizia o eterno era apenas milagre. Era desfeitura lenta lenta irreversível e pensávamos que eram flores novíssimas e incorrosíveis. Algo me prevenira, algo me alertara sobre o mundo lá fora onde há apenas siso. Onde há o preço do tempo, onde há uma fruta envelhecendo o que era perfeito. Onde o desmoronamento delicado menos que ingênuo. O mundo (pergunta) será avesso a paraísos. Estamos somos (pergunta) num tempo que rege e escoa num topo num limbo será.
Ela se queima, doutor. Ela não fez as equações de matemática. Ela amassou o vestidinho novo. Ela maltratou o cachorrinho. Ela se perfura, doutor. Ela não terminou a redação. Ela faltou à catequese. Ela deixou morrer o peixinho. Ela se mutila, doutora. Agora arranjou um namoradinho. Escuta músicas esquisitas.Essa noite conseguiu dormir duas horas, graças a Deus! Sim, se alimentou melhor. Fica no telefone com uma amiga. Inventou de dançar até de madrugada.Não, deixou de se alimentar. E novamente.
Estava num elevador num teatro na fila de espera num frigorífico. E escolhi um rosto e mãos que apagam o cigarro a boca
que traga
que boceja
que pede mais uma cerveja
que faz uma pergunta incompleta
que destina tempo a flores de pano
que desfaz aos poucos os fios da trama
que gargalha
que nada diz. Que, pensando bem, disse que o mundo é dentro e eu copio a sua frase aqui — não sem medo de pisar nos cacos não sem medo de que o seu rosto me assalte e as incertezas.
Fim do dia e a própria tarde desce a rua. Remendo imensas pilhas cheias de imensos. Por isso remexi nas conchas sobre os panos. Por isso desacreditei que importavam rastros. Por isso lamentei não ter velado os máximos. Reverter o mérito desta flor ousada. Por isso reinvento os ínfimos como se enormes.
(Fica quietinha)

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Conto reproduzido do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.
Luci Collin nasceu e vive em Curitiba. É autora, entre outros, dos livros de contos Inescritos (2004) e Vozes num divertimento (2008), do romance Nossa senhora d’aqui (2015) e dos livros de poemas Querer falar (2014) — obra finalista do Prêmio Oceanos 2015 — e A palavra algo (2016).“Tourniquet” faz parte do livro de contos A peça intocada, a ser lançado este mês pela Editora Arte & Letra.
Simon Taylor é desenhista, designer gráfico e diretor da Ctrl S Comunicação. Nascido em Curitiba em 1974, trabalha em jornais paranaenses desde 1996. É autor dos livros Charge agora… ou cale-se para sempre! (2013), Meus cases de sucesso (2014) e Sketchers do Brasil (2016). É vencedor de diversos prêmios Sangue Bom do Jornalismo Paranaense.Vive em Curitiba.

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