Um inesquecível 1º de março

  –  Um texto memória de Montezuma Cruz  –

Na foto, crianças e mulheres paraguaias num hospital no final da Guerra do Paraguai. (Reprodução)

Quarenta anos atrás, neste dia, eu estava às margens do Rio Aquidabán, no Paraguai. Chegava a Cerro Corá em 1º de março de 1977. Nessa data, a cada ano, o país vizinho lembra a morte do seu herói, marechal Solano Lopes (1870). Às margens daquele lendário rio assistia à apresentação de um grupo teatral de Asunción, que lembrava o outro lado da guerra, aquele revelando massacres contra mães e crianças.
Eu trabalhava com o paraguaio João Batista Lopes e João Natalício, um quase paraguaio. O primeiro era motorista do Fusca da Folha de Londrina, o segundo, gerente da sucursal daquele jornal em Dourados, ainda Mato Grosso.
João e Natalício estavam “em casa”. A festa entrava na madrugada, num ambiente que enchia meus olhos e tocava o meu coração: dezenas de mães amamentavam bebês deitadas em redes ou sentadas na relva. Vinha-me à memória as aulas do saudoso professor gaúcho Luiz Carlos Simione (Piraju-SP), a respeito da Batalha da Costa Añu, que dizimou mais de três mil mulheres e meninos. Calava-me diante do ímpeto daqueles atores, do sentimento à flor da pele, dos gestos e da crueza histórica.
Em consequência de um temporal na manhã do dia 1º de março de 1977, o generalíssimo Alfredo Stroessner permaneceria na capital. Suspenso o voo que o levaria a Pedro Juan Caballero, a comemoração ficava por conta de quem já estava lá. Entre os militares, maioria absoluta no staff presidencial, destacava-se o ministro da Defesa e também presidente do Instituto Nacional de Desenvolvimento Indígena (Indi), general Marcial Samaniego. Conversei com ele durante a manhã toda.
Com mais de 70 anos na época, Samaniego encarava-me, mostrando-se afável ao perceber o meu interesse pela civilização guarani. Mais gentil ficou, quando lhe informei que conhecia o então presidente da Funai, general Ismarth Araújo de Oliveira, do qual ele se tornara amigo.
Falamos da cultura e sobrevivência indígena, da invasão de suas terras, das etnias sul-americanas, da amizade entre os povos – uma conversa bem próspera, com aspectos políticos e antropológicos.
Escrevia a matéria, editada por Jota Oliveira, e o chefe de Redação Walmor Macarini estampava a manchete: Eternamente Lopes: as comemorações do 1º de março em Cerro-Corá.
NOTAS do AUTOR:
(1)Wikipedia: A Batalha de Cerro Corá travou-se em 1º de março 1870 na elevação de mesmo nome, na cordilheira ao norte do Paraguai. Última batalha da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), enfrentaram-se, de um lado, 4.500 soldados aliados e, de outro, apenas 450 paraguaios. O local da batalha constitui o Parque Nacional de Cerro Corá, distante cerca de 40 quilômetros de Pedro Juan Caballero, capital do Departamento de Amamby (fronteira com Ponta Porã – Brasil). Os últimos a perecer foram o presidente e comandante-em-chefe Marechal Francisco Solano López e seu filho Panchito. O Filho de Solano López foi morto por soldados enquanto fugia com sua mãe, Elisa Alícia Lynch.
(2)Leia também:
 – Guerra do Paraguai, genocídio a serviço do imperialismo ou conflito de causas regionais
 – As verdadeiras causas e consequências da Guerra do Paraguai
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Montezuma Cruz é jornalista em Guará, DF. Trabalhou na sucursal do jornal Folha de Londrina em Foz do Iguaçu e durante muitos anos fez a cobertura jornalística das relações entre o Brasil e o Paraguai, inclusive quando da ditadura de Stroessner naquele País. 

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