Um inesquecível fiasco

  –  Um texto de Montezuma Cruz  –

 
Ainda não havia internet em todo o seu esplendor. Foz do Iguaçu mal havia esquecido o telex, usava muito bem o telefone e até lia um jornal via faz, o Foz em Resumo de Vinicius Ferreira. Justamente nesse terceiro ano dos 1990, as tecnologias disponíveis vieram para “fazer acontecer”.
Numa terra em que delegados da Receita Federal se surpreendiam com demissões por telefone, da maneira como o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva exonerou o então ministro da educação, Cristovam Buarque, a inauguração do sistema de comércio exterior (Siscomex), um fiasco a mais não faria tanta diferença.
Assim ocorreu com a estréia do Siscomex, pomposo no nome, desajustado para estrear sem problemas. Em quatro de janeiro de 1993 uma pane no sistema de computadores causou enorme alvoroço no Banco do Brasil, Receita Federal, Carteira de comercio exterior (Cacex) e Codapar (antiga Infraestrutura Fazendária).
Tudo fora programado para processar on-line 80 milhões de informações por minuto, nos módulos cambial, aduaneiro e de comércio exterior. E não deu certo, frustrando aproximadamente 360 empresas de Foz.
Seria uma pane comum, não fosse o governo federal inaugurar naquele dia o novo sistema de exportações nas Três Fronteiras. E a zebra informática resultou em prejuízos de US$ 6 milhões. Ouvidos por autoridades de plantão, comerciantes da Vila Portes, a zona exportadora iguaçuense, exigiam explicações. Nem a Receita, nem o BB, muito menos a Associação Comercial e a Prefeitura sabiam esclarecer o nó górdio.
 
“Siscomex interrompe exportações em Foz” – foi a manchete, na capa do caderno de Economia da Folha de Londrina, em 05/01/1993. A notícia enviada pela versátil sucursal de Foz destacava que os terminais de computadores deixaram de funcionar na aduana da Ponte da Amizade, “em pleno primeiro dia do Siscomex”.
Não havia a quem apelar. A confusão misturava xingamentos e risos, numa reação natural entre aqueles que esperavam pelo êxito da modernidade. Não deu outra: com a interrupção do acesso a Curitiba e Brasília, os negócios com o Paraguai forma paralisados. Nem os bancos entraram no ritmo do revolucionário método que substituiria, por uma única, as 30 vias de guias para exportação e importação.
Tempo desafiador aquele. A Estação Aduana de Fronteira batia recordes sucessivos. Somente à noite a fiscalização da Receita Federal liberava em média 500 veículos, dos quais, quase um terço setor de exportação e outro tanto na fila de importação. Cargas vindas do Porto de Paranaguá, usado pelo Paraguai graças a um antigo acordo firmado após a Guerra da Tríplice Aliança.
O golpe na burocracia do papel teve efeito bumerangue, pois essa bruxa teimava em deixar rastros na aduana. E bem semelhante a um castigo daqueles, ensinou que o novo tem que ser bem experimentado, adaptado e rigidamente controlado, exigindo sobretudo paciência.
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Montezuma Cruz é jornalista em Porto Velho, Rondônia. Texto publicado na revista Escrita e no livro “Do jeito que eu vi”

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