Um pato no telhado

  –  Um conto de José Maschio  –

pato no telhado 23Os velhos acordam cedo. Não precisam, mas acordam. Era velho e acordava cedo. Nem sabia a razão. Foi até a cozinha, colocou a água para ferver. Gostava do café forte, apenas uma pontinha de açúcar para quebrar o amargo da palha misturada ao pó. Era um hábito de anos, o café forte pela manhã a acompanhar o jornal diário. Velhos são cheios de manhas e hábitos. Ele não era diferente.
Com a água no fogo, foi até a caixa de Correios pegar o jornal. Foi quando reparou: havia um pato no telhado. Sim, um pato no telhado. A experiência, de velho, indicou que era um pato macho.
Branco, forte, inquieto, o pato parecia orgulhoso da proeza. Voara até o telhado.
Com o jornal debaixo do braço, o velho parecia um francês com seu baguete no sovaco. Observou o pato. Não era um dos seus. O pato olhou para ele, caminhou sobre a cumeeira da casa e parecia indeciso. Não se decidia para que lado iria. É uma loteria, pensou o velho.
O pato tinha alternativas. Poderia voar até o parque dos coelhos, até a horta ou descer no galinheiro. Só não podia descer no quintal da casa. Um pato lento e gordo, por mais valente, não teria chances com os cães. Seria presa fácil aos americanos, caçadores por natureza.
O velho ficou um tempo a observar o pato, que não se decidia. Dava para sentir a euforia do pato pela proeza, voar até o telhado da casa. Deve ter voado um bocado até aqui, pensou o velho. E à noite, pois os patos são notívagos, gostam de sassaricar noite afora.
Lembrou-se da água no fogo e se recriminou. Não gostava de passar o café com água fervente. Voltou à cozinha e trocou a água. Mania dele, fazer o café com a água nas primeiras bolhas da fervura. Enquanto esperava a água ficar no ponto, pensava no pato. É o chamado da ancestralidade, disse em voz alta, como se conversasse com alguém.
Outra mania de velho solitário. Falar em voz alta. Ser velho dá essas liberdades. Pensar em voz alta. E ele gostava disso. A busca da ancestralidade é uma coisa genética meu velho, falou a conversar com o pato no telhado. Vocês patos, foram uma das últimas aves a serem domesticadas. Ao contrário de seus primos marrecos e gansos que estão com os homens desde os primórdios da civilização. Eles já perderam esse chamado, essa busca pelas origens. Vocês são os últimos dos moicanos. E riu. Mania de velho, falar e rir sozinho. É que uma ideia ocorreu ao velho: os patos e os perus (mas esse bicho é de capoeira, não de voos longos) sobreviveram aos moicanos depois da chegada de Colombo ao novo mundo.
Estranha essa barbárie humana. Dizimam os iguais e preservam aqueles que podem virar alimento. O velho pensou que existia uma lógica, perversa, mas coerente, na ação humana. Avançamos da condição de canibal, mas continuamos antropofágicos, disse por fim o velho e encheu um copo, daqueles usados para vender doses de pingas em botecos, de café.
Depois do primeiro gole, acendeu um cigarro. Velhos não mudam velhos hábitos. E o café com o cigarro matinal era um hábito de muitos anos. Ele nem lembrava mais quanto tempo fazia esse ritual diário. Só fazia. Era velho demais para lembrar coisas corriqueiras e, nos últimos dias, dera também para esquecer as memórias antigas.
Uma dor lancinante o fez lembrar que, há dias, não saberia quantificar, não tomava seu remédio para o coração. Pensou um buscar o remédio, pensou em mais um cigarro. Na dúvida, tomou mais um gole de café. E pensou no pato no telhado. É meu velho, o chamado da ancestralidade é muito forte, até para os humanos. Foi a última coisa que pensou e disse.


José Maschio é jornalista em Cambé, Pr.
 
 
 

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