Um poeta no Zoo

  – Um texto e fotografias de Áurea Cunha  –


Ele conhece cada animal pelo nome. Gabriel Ferreira de Matos é um dos tratadores do Zoo Bosque Guarani. Este paranaense de Medianeira, 44 anos, de fala mansa trata de macacos, jacaré, ema, jabutis, pavão e da felina Teca, uma espécie de musa inspiradora.
Experiente em sua profissão, ele – que trabalhou no Refúgio Biológico antes de vir para o Zoo do Bosque onde está há 16 anos – conta que não tem medo de tratar a onça, pois respeita o espaço dela. E carinho não falta através da grade.
Quando Gabriel passa no corredor inda que não seja para alimentar Teca, a onça de aproximadamente quatro anos que vive a três e meio no Zoo de Foz do Iguaçu, segue-o com o olhar. “Ela me conhece pelo cheiro e pela voz”, explica o tratador.
Pela voz, ele explica, acontece porque costuma conversar muito com ela. E à minha indagação do que uma pessoa poderia conversar com uma onça, Gabriel responde seguro: “Elogio, ela. Chamo de gata linda e percebo que já começa a rolar, às vezes ela me pede um carinho atrás da orelha. Tem gente que fala com plantas, eu falo com os bichos”!”
“A convivência faz com que a gente passe a amar.”  Alguns viram amigos, segundo ele.”É uma amizade onde a gente respeita o limite deles. Mas isto não se consegue do dia para a noite é com muita dedicação e convivência”.
 
 

Gabriel montou poemas seus em folhas de papelão, expostos no Zoo.

Poesia para eles
‘Teca’, assim como outros felinos que já passaram pelo Zoo Guarani, são inspiração de versos do tratador/poeta Gabriel. Ele diz que a poesia entrou em sua vida mesmo antes do zoo. Encontrou na poesia uma forma de combater a depressão em um período que ficou desempregado. Mas que foi no Bosque Guarani que encontrou sua principal matéria prima para escrever, ‘o amor pelos animais’.
Em ‘Extração’, poema dedicado aos felinos que já passaram pelo Zoo Guarani, Gabriel usa a primeira pessoa e tenta explicar o mal menor de uma instituição como o Zoo, frente ao crime ambiental: “Retiraram-e da selva, com maldade interesseira / passei de mão em mão. / Mesmo pedindo perdão, para a consciência humana não havia solução. /
Caçador enfurecido, talvez não tenha lido, / nós também somos amigos e está nas páginas desse livro. / Minha natureza foi alterada, um dia será restaurada. / Uma luz brilhou, a instituição me adotou, o zoológico tornou-se meu pai, os filhos do zoológico são meus irmãos, obrigado por ser meu genitor adotivo. ”
 
Direito ao afeto
Algumas pessoas poderiam questionar uma possível ‘humanização’ dos bichos. Afinal, de fato é questionável se tratar bicho como gente. Gabriel, no entanto, trata bicho como bicho, mas não lhes nega afeto. Presenciei este chamego da onça Teca com Gabriel. O que se percebe é que há uma interação. Não se tem ali algo falseado ou exagerado. Mas afetos construídos pela convivência diária, seja ao alimentá-la ou na limpeza do recinto. Um acompanhamento e presença constante.
“Não conseguiria ser indiferente a eles (os animais), fazer o meu trabalho de forma automática”, diz o tratador.
E fala no plural com propriedde. Pois não é só com a onça que tais trocas são percebidas. Durante o percurso pelo Zoo Guarani, no qual acompanhei o tratador, outras demonstrações de carinho para com os animais foram aparecendo.
Gabriel cata uma goiaba do chão e diz. “Vou levar para o Ivan, ele adora!’ E, eu, surpresa, aprendo em seguida que ‘Ivan, o terrível’ é uma ema macho, bravo, que vive só no recinto. Chamado assim por Gabriel por conta das bicadas que costuma distribuir.
Interessante também foi o encontro do tratador com um macaco prego, que atende pelo apelido de Neymar. Cumprimenta Gabriel com um tapinha de mão, no estilo: “toca aqui”. Pois é, se alguém me contasse eu também diria que isso é ‘conversa de tratador’.
Um outro momento que me deixou intrigada mesmo foi com um jabuti ancião, o ‘Aristides’. Normalmente os quelônios – nome dado à ordem a que pertencem répteis como jabutis, cágados e tartarugas, que teria surgido no mundo entre 230 e 195 milhões de anos atrás – com suas duras cascas não são exatamente o que chamamos de “bichos fofos”. Mas não é que o jabuti deixou o alimento que tinha acabado de ser servido e, com sua lentidão peculiar, veio para junto do tratador, ficando a seus pés com olhar de quem queria algo mais. Se a gente não quer só comida, por que com os bichos seria diferente? Mudei o meu conceito sobre bichos fofos.
Paciência, ótima pedida
Enquanto andamos pelas trilhas do Zoo, as histórias e peculiaridades de cada bicho vão brotando na prosa de Gabriel. ‘Susan’ é uma jacaré do papo amarelo. Temperamental, ela deu uma surra na colega de recinto ao ponto da outra ter que se mudar para um outro lago do Zoo. Gabriel se aproxima da jacaré numa boa. Claro, com cuidado. Pois além de habilidade nota-se um respeito e paciência de quem conhece bem o “gênio da moça”.
Ele desenvolveu uma técnica para alimentá-la. Como ela é ‘bravinha’, poderia lançar a comida de longe, o que seria bem justificável. Mas, não! Prefere que ela receba o alimento de sua mão, ou pelo mens da extensão desta e, por isso, espeta a carne em uma espécie de espeto e oferece à gula de Susan.
Além de alimentar aos animais, os tratadores do Zoológico limpam os recintos e, nessa convivência direta e permanente com os animais, prestam um outro serviço. Eles levam informações aos veterinários sobre mudanças no comportamento do plantel.
Gabriel se sente orgulhoso em tratar os bichos. “Tem que gostar muito, não basta chegar aqui e dar a comida de forma automática. Tem que ter dom e gostar. Tem todo um ritual de observação para poder ser um tratador completo”, defende.
‘A gente faz cursos, mas aprendemos também no dia a dia, no manejo, observando. “Procuramos diminuir ao máximo o estresse deles, estimulamos que interajam entre os de cada espécie.”
Numa outra vertente do trabalho de tratadores como o Gabriel está a massificação da ideia de que tentar domesticar animais silvestres não é uma atitude sensata. Ele explica que a própria existência de zoológicos é parte da insensatez humana.
“Aqui é um centro de apoio aos animais que perderam suas casas ou seus pais. E é um centro terapêutico para nós também. É por causa das atitudes do ser humano que os animais precisam vir para cá”. E prega: “Tudo tem a mão divina. Tudo é parte do meio ambiente. Os animais dependem de nós e nós deles. É o planeta Terra. Eles beneficiam mais a nós do que o inverso”.
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Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado na revista Escrita 47

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