Um santuário, suas dificuldades e sua importância

  –  Neste terceiro artigo, Áurea Cunha alinhava informações sobre o Bosque Guarani e o mini zoológico que funciona dentro dele. Mostra a importância da preservação daquela área no centro de Foz do Iguaçu  –


 

Onde estão os bichos?

Uma área de 45 mil metros de mata nativa pintando de verde um pontinho do centro nevrálgico da cidade. Uma área resguardada e entregue ao Município, em meados do século passado, por uma grande madeireira que dominou o ciclo da madeira na fronteira. Na verdade, sendo um pequeníssimo recorte de floresta estacional semidecidual, pertencente ao bioma da Mata Atlântica, o Bosque Guarani é o que sobrou da vegetação que existia em toda margem do Rio Paraná, no quadrilátero urbano mais antigo da Foz que nasceu dez décadas atrás.
Hoje, naquela reserva, são 963 árvores nativas, de mais de 60 espécies diferentes. Entre as de grande porte estão exemplares de cedro, canafístula, angico, amoreira, paineiras, farinha-seca e figueiras. Também chama a atenção a presença de bromélias, epífitas e orquídeas em profusão em meio àquela composição. No seu conjunto, o Bosque Guarani é um delicado complexo vegetal que preserva a água de grande nascente que existe no local.

Como é o Zoo Guarani

E está lá, no interior daquele pequeno santuário verde, o Zoo Guarani. Terceiro do Paraná em tamanho, duas trilhas principais o dividem por setor. Ao todo, são 21 recintos e quatro lagos que abrigam os mais de 250 representantes de 32 espécies de aves, répteis e mamíferos.
 

“Teca”, a onça pintada, é o maior mamífero do Bosque. A mãe foi morta no Mato Grosso e ela veio filhote para Foz. Primeiro para o Refúgio Biológico de Itaipu, que a repassou para o Zoo Guarani. (Foto: Áurea Cunha)

Em alguns recintos, animais são mantidos a sós, como a onça “Teca”. Em outros, formam pequenas comunidades, como é o caso dos macacos, dos saguis e das araras. Nos lagos, jacarés e tartarugas são sempre avistados.
 
O Bosque Guarani conta também com um mini auditório com materiais visuais relativos ao zoo, o espaço do CEAI e um anfiteatro. Completam os equipamentos para os visitantes, um playground e banheiros.  Há ainda as dependências técnicas e administrativas. Hoje a equipe que mantém o funcionamento daquele espaço é formada por um biólogo exclusivo, uma veterinária, seis tratadores, três encarregados de serviços gerais, além de estagiários.
Bem central, fica a poucos metros do principal Terminal de Transportes Urbanos da cidade e funciona de segunda a domingo. O acesso é gratuito e a média de visitação mensal que oscila próxima de mil pessoas, vem aumentando. Em 2015, o último ano já totalizado, cerca de 180 mil pessoas visitaram o Zoológico.
No livo de registro de visitas do Zoo, pode-se aferir visitantes oriundos de todas as partes do Brasil, da América do Sul e de outros continentes, como EUA e Japão.
As lagoas do Zoo Guarani são abastecidas de água por uma grande nascente que foi preservada com a criação do Zoo. (Foto: Áurea Cunha)

 
Impacto – O Zoo do Bosque Guarani foi inaugurado em junho de 1996, dentro das festividades do aniversário da cidade naquele ano. Vinte e um anos atrás, o feito de preservar a mata foi uma vitória ambiental. Ainda que o impacto de se montar um zoológico no centro da cidade tenha sido relativizado, tanto do ponto de vista da qualidade de vida dos animais quanto do entorno da área preservada.
Aluízio Palmar, Patrícia Cubas e Sidnei de Oliveira, ouvidos nesta reportagem, tem entendimentos coincidentes quanto ao pouco estudo das consequências ambientais. “Mesmo assim, foi seguida a legislação do IBAMA vigente na época quanto ao tamanhos dos recintos, número de animais e estrutura mínima de funcionamento do zoo”, ressalva Patrícia Cubas.
Sidnei de Oliveira, biólogo do Zoo desde 2001, explica que posteriormente foi feito um estudo de impacto da poluição sonora sobre os animais. O resultado demostrou principalmente que a área que sofre com o barulho dos ônibus que chegam e saem do terminal de transportes é a parte frontal do Bosque. E que, felizmente, a parte onde estão os animais, mais recuada e resguardada pela vegetação, é muito pouco alcançado pelo som do trânsito.
O Zoo está localizado na parte mais protegida do Bosque Guarani. Segundo pesquisa realizada, o impacto da poluição sonora do entorno nos animais seria muito pequena. (Foto: Áurea Cunha)

 
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Rumores de fechamento
Durante esta reportagem, conversei com pelo menos três pessoas que ainda temem o fechamento do Zoológico e consequentemente a ameaça da perda do Bosque e das nascentes. Afinal, no passado recente já houve essa tentativa, que se esbarrou na questão primordial: que é a para onde se enviar os animais?
“Até hoje a gente ouve falar que o zoo vai fechar. É uma área supervalorizada do ponto de vista imobiliário. Mas o Zoo tem 20 anos de história, muitos alunos passaram por aqui, aprenderam noções de educação e preservação ambiental e isto, afinal, deve ter um peso”, comenta o biólogo Sidnei de Oliveira.
Sidnei acrescenta: “Os zoológicos do Brasil estão superlotados. Falar que vai tirar os animais daqui é muito difícil. Levar para onde? Tem é que pensar em sempre melhorar o espaço”.
Em 2014, cerca de mil e trezentas pessoas, deram um abraço simbólico no Bosque e Zoo Guarani, comemorando o Dia da Árvore e chamando a atenção para a importância de se manter aquele espaço intacto. (Reprodução de imagem RPC/Giovane Zanardi)

Vizinha e defensora – Tereza Pereira da Silva é proprietária de uma pousada que tem a frente voltada para o Bosque Guarani. Ela afirma que a presença dos animais não incomoda ninguém. Ao contrário, é um privilégio tê-los por perto . “No final de semana é cheio de gente. Os hóspedes frequentam bastante também”.
Ela só reclama da falta de limpeza e de segurança na área externa. Tereza conta que turistas já foram assaltados nas redondezas do Bosque, ainda que o local conte com a presença da Guarda Municipal.
 

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