Viajando na maionese

  –  Um conto de Tati Lopatiuk  –


Tudo estava calmo. O mundo rodopiando daquele jeitinho mais ou menos de sempre. Escândalos na política, gente morrendo, gente nascendo, modelo-atriz-apresentadora-mongol aprontando mais um basfond , desta vez nos mares aquáticos da espanholíssima Espanha… Enfim, tudo mó normal, sem grandes surpresas. E depois do catchup de goiaba e da cerveja com limão, eu achei que os inventores de comida, os professores Pardais da culinária, os Einstens das panelas, enfim este povo luxento que fica cozinhando com chapeuzinhos brancos fofos, iria sentar a bunda e descansar um pouco. Mas quão repleto de caprichos e maluquices o mundo das panelas é, não é?! Quantos mistérios misteriosos não estufam a mente dos profissionais da frigideira, nénão!? E, quando você menos espera, é surpreendida por alguma bizarrice hedionda do mundo dos sabores.
Eu já vi tudo no mundo dos temperos e fôrmas untadas. Quando inventaram a BONO COM LIMÃO eu estava lá. Quando inventaram o SORVETE DE ROSAS, DE GENGIBRE, DE MANJERICÃO, eu estava lá. Por Deus, quando inventaram a CHERRY COKE eu também estava lá! Mas, a verdade, meus amorecos, a dura verdade é que por mais experiente que você seja, a vida sempre arruma um jeito de te deixar com os fundilhos de fora, de te passar uma rasteira. Por vezes o golpe vem de onde você menos espera.
Domingo à noite. Você e seu namorado (BEIJO, FÊ!!) se preparam para degustar uma inóspita e cotidiana pizza quatro queijos. Até aí tudo bem, não é mesmo? Não é mesmo? Não é mesmo? (/surda). Em dado momento, seu namorado surge da cozinha com um brilho doentio nos olhos, um sorriso macabro nos lábios e um potinho na mão. E no inquebrável potinho se encerra toda a loucura do mundo culinário, toda sandice amalucada, toda a falta de limites e de escrúpulos dos ditos “chefs de cousine”. Felipe, mergulhado em sua alegria infantil, em sua ingênuidade púbere que nem o vídeo da Cicarelli pôde corromper, coloca o potinho na mesa e é nítido que ele está se contendo para não cantarolar um nefasto lá- rá –rá- rá , tamanha a visível felicidade que o potinho lhe traz. E o que há naquele potinho, meu pai eterno? O quê?
 

MOLHO 3 EM 1 DA HELLMANNS

 
Segundo o próprio site da Hellmanns, o Molho 3 em 1 nada mais é do que um “molho à base de ketchup, maionese e mostarda. Resultado da união de Hellmann´s® e Cica Pic, o produto alia o melhor que elas podem oferecer: o sabor e a embalagem de Cica Pic, com qualidade e tradição da marca Hellmann´s®. Seu Pic de cara nova e com o compromisso de Hellmann´s®. Garantia de qualidade sem alterar o sabor que você já aprovou há tanto tempo!”
 
 

ALOU?

 
Só pode ser sacanagem. É, tipo o lançamento mais hediondo e doentio de que já tive notícia. Quer coisa mais freake do que misturar num pote mostarda, catchup e maionese, sacudir e passar no pão? Quer dizer, a pessoa já nem vai mais ter o trabalho de pegar uma *cobertura* de cada vez, pega o misturadão e boa. Puta troço de preguiçoso, este produto novo da réumans. Vá lá, ser preguiçoso tudo bem. Mas daí a ter preguiça até de preparar sua comida… azifudê, né gente. É mais do que um molho diferente e prático, é uma síntese do homem moderno e da sociedade em que vivemos! Um mundo onde a política do menor esforço corrompe todos os benefícios que uma vida saudável pode trazer! Um mundo de fast food , junk food e toda essa caralhada de porcariada gostosa, mas NOCIVA à nossa saúde!!! Este tipo de lançamento só faz com que mais pessoas colem a bunda no sofá e se acostumem a ter tudo na mão!!!
 
E não pense você, caro amiguinho, que o Molho 3 em 1 tem só isso que aparenta: ketchup , maionese e mostarda. Prá deixar dessa cor laranjadinho-mistureba, este cheiro e este sabor de três coisas em uma só, lá se vão 35 anos da história evolutiva dos condimentos. Dá só um look , como se dizia no meu tempo, nos ingredientes desta bomba *genial* que a réumans nos oferta:
 
Tomate, açúcar, vinagre, óleo vegetal, amido modificado, sal, ovos pasteurizados, suco de limão, mostarda, cúrcuma, pimenta-do-reino, canela, sorbato de potássio, benzoato de sódio, pectina, goma Xantana, ácido lático, BHA, BHT, EDTA e aromatizantes. Não contém glúten.
 
 
Não sei o que é um amido, mas não me parece certo que ele tenha que ser modificado para caber nesta nefasta receita. E lendo mais adiante, o que vemos???
 

AHÁ! LIMÃO!!

 
Há anos travo esta luta inglória contra o limão e seus coligados. Não tenho nada contra a fruta em si, mas acho realmente perigoso o poder que esta fruta àcida e verde vem aglomerando com o passar dos anos. Creio, piamente, que se num belo dia acabar todo o limão do mundo, acabará junto toda a sociedade como a conhecemos, bem como tudo o que há de comer, pois hoje em dia não há NADA na indústria alimentícia que não tenha uma versão com limão, que é sempre a mais cool .
E o que podemos dizer destas siglas sinistras: BHA, PRONA, BHT, PSDB, EDTA e tal? Por que em siglas ? O que querem nos esconder? GOMA XANTANA?
GOMA XANTANA…. Prá mim já chega.!
 
Fim
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Tatiani Lopatiuk, à época da edição do conto era contabilista em Foz do Iguaçu. Atualmente é publicitária em São Paulo.
O conto “Viajando na maionese” foi publicado originalmente na edição 3 da revista Escrita Guatá, em 2008. Leia mais textos do programa Tirando de Letras em www.guata.com.br

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